Um grande jogador, como uma grande equipa, começa a formar-se na cabeça. O entendimento do jogo global da equipa não é, no entanto, igual para todos os jogadores. Depende, desde logo, da sua personalidade e visão táctica. Depois, influi muito a sua posição em campo. É diferente a percepção de jogo que tem um lateral, que o vê desde um flanco, da que tem um central, que o vê desde o centro. A influência estabilizadora no jogo é muito maior na zona central. Os flancos convidam mais à rebeldia. E o risco (perder a bola) é, por principio, menor numa faixa do que no centro. Por isso, muitos jogadores crescem mentalmente quando passam a jogar numa posição mais central. Tecnicamente, já não será bem assim, mas, na cabeça, não duvido. No fundo, são obrigados a ficar mais «responsáveis» no jogo.
Penso nisso vendo Sergio Ramos, um jogador que joga sempre cavalgando emoções, a jogar como defesa-central em vez de lateral-direito, a sua posição de origem que faz mais vezes. Na faixa, destaca-se pela garra. Faz todo o corredor, corta e sobe ao ataque com alma em cada jogada que entra, em cada centro que tira. Vê-se que tem valor, mas, muitas vezes, todo esse lado emocional intenso, confunde a limpeza táctica do seu jogo. Parece correr mais do que joga. Muitas vezes é mesmo isso.
No último jogo, na Corunha, a central, vê-se o mesmo carácter mas outro controlo emocional-táctico. Mais do que ter sido ele a mudar interiormente, são as circunstâncias externas que o levam a essa alteração. Como? A posição, por si só, exige-lhe que seja mais responsável. A pensar melhor cada sentido posicional, a pensar melhor cada bola que conduz e passa. É a chamada posição mais «responsável».
A equipa sente isso e também fica colectivamente mais responsável tacticamente. Esta ideia de responsabilidade posicional estende-se ao longo do campo. Olhámos os três corredores e a sensação que fica é que as suas maiores consciências tácticas estão no corredor central. As faixas são mais para os inventores emocionais.
Esta moldura responsável não impede, no entanto, que também o génio «saudavelmente irresponsável» também surja no centro. Tem é de ser no momento certo. Um exemplo dessa noção cruzada de responsabilidade-rebeldia foi dado, no mesmo jogo, a cada lance seu, por Guti. Tem fama de rebelde, mas é só no nariz no ar com que exige um lugar na equipa. Quando entra, o seu sentido de responsabilidade táctica é perfeito. No sentido posicional com que mantêm sempre a equipa equilibrada, até ao toque de calcanhar mais mágico que desequilibrou o adversário e virou toda a lógica do jogo de pernas para o ar. É o auge do futebol criativo responsável.