Nos Açores, à tarde, fui a Rabo de Peixe ver um jogo da distrital. Identifiquei-me mais nesse ambiente do que à noite, onde, na I Liga, vi um adepto só numa bancada inteira”
Reparei nele logo no inicio. Noite fria, a ameaçar chuva, e ele sozinho na bancada atrás da baliza a estender a bandeira do seu clube. Esteve sempre atento ao jogo. Não deu para vibrar muito. O jogo foi fraco, 0-0 sem emoção.
O Arouca jogava nos Açores com o Santa Clara e ele seguira a equipa com uma devoção tão enorme como solitária. No final, fiquei a olhar para ele quando vi os jogadores encaminharem-se na direção dessa bancada dum homem só. Logo chamei atenção da realização e do meu colega Ivo Costa que já relatava a classificação da jornada.
Era o momento perfeito para romancear e refletir sobre o que tudo aquilo significava. Todos os jogadores, treinadores e staff arouquense foram cumprimentar o adepto eremita, o Francisco, a quem, na flash, Matias Rocha agradeceu dizendo o nome.
A imagem traduzia na perfeição o que é hoje o futebol português na realidade mais profunda e implacável. A paixão dum adepto que adora o seu clube sem pedir nada em troca até o seguir sozinho milhares de quilómetros de avião no inverno numa bancada vazia e fria dum jogo da I Liga.
Crítica e elogio


Numa altura em que apresentam métricas ilusórias de assistências médias nos estádios, falam da centralização de direitos e das centenas de milhões que valem, somos confrontados com esta crua realidade.
O futebol português vive em cima dum cenário irreal, clubes artificiais, três grandes macrocéfalos, jogos quase clandestinos e uma turba de gritaria em seu torno.
O seu verdadeiro valor facial é o daquele adepto.
Por isso, disse que era a imagem perfeita do futebol português que, pela forma como tem sido tratado, conseguiu ver a sua principal Liga tornar-se noticia em todo o mundo por ter num jogo apenas um adepto numa bancada inteira.
A imagem (da situação) é a critica. A cara (do adepto) é o elogio.
No dia seguinte, voltei a ver o adepto (que foi jantar com a equipa ao hotel) pelas salas de espera nos aeroportos. Solitário, mochila e sempre as cores do clube (mesmo na escala em Lisboa até regressar a Arouca).
Antes, em Rabo de Peixe

No mesmo dia, eu tinha aproveitado a tarde para ir a Rabo de Peixe e ver um jogo da distrital açoriana (o Rabo de Peixe-São Roque).
Tinha gente de verdade na bancada única, a meu lado o Iaiá, guineense que emigrara para lá há 25 anos, jogou no clube e tem agora o filho nos sub-19 do Braga. Falamos, rimos e vi um jogo melhor (confesso) do que o que comentaria à noite da I Liga.
Identifiquei-me muito mais com esse ambiente (até nas lágrimas do Leandro, lateral-esquerdo filho da terra pobre, desfeito perder a acabar). O outro, que critiquei romanceando uma imagem inusitada, mostrou o futebol português despedido, tapado por um adepto só.
A paixão solitária como a mais bonita. Um dia, porém, nem ele lá estará.





