Um menino de 17 anos, pele negra e as quinas ao peito. Neste tempo, ninguém representou tão bem o que deve ser Portugal!
A minha figura do ano é um menino de 17 anos. O futebol com causas perante o seu espelho mais gigante: a vida e a sociedade que o rodeiam.
Nesse sentido, esse menino simboliza muito daquilo que deve ser Portugal hoje, ontem e sempre. Na forma de ser e na forma também de agirmos em relação ao que é a memória e o ao que deve ser a construção do futuro.
A minha figura do ano é o Anisio Cabral, um guineense, tal como o Éder que nos deu o Europeu 2016.
Em 2025, o Anisio, é um menino guineense que veio para o nosso país porque há vários anos vieram os seus pais à procura duma vida melhor. Lutando, encontraram-na e já lhe puderam dar outra formação, para ele crescer no Benfica e ser agora um menino com sonhos.
O símbolo Anisio Cabral

É preciso ter essa empatia por estas pessoas que vêm para o nosso país à procura duma vida melhor, muitas vezes com enormes dificuldades, vivendo em situações inacreditáveis, para terem um pedaço de pão ou, às vezes, só um pouco mais de dinheiro para enviar às suas famílias em terras tão, tão longe.
O Anisio já não tem essas dificuldades tão grandes porque já é filho duma segunda geração de guineenses que vieram para Portugal, tal como o Éder.
Deu-nos o título do Mundial Sub-17, depois de já também ter conseguido o titulo do Europeu da mesma categoria.
Tudo com a sua pele negra e o nosso emblema das quinas ao peito. Fez golos e correu no ataque dessa equipa que se tornará eterna no nosso coração com vida e futebol. Fará 18 anos em Fevereiro.
Mais do que uma escolha, é uma afirmação.
O poder do futebol
O final de cada ano suscita-nos sempre uma irresistível tentação de balanço mas desta vez esse exercício causa uma perturbação que julguei nunca mais ser possível voltar a sentir.
Neste tempo excessivamente estranho em que vivemos, é importante (urgente e obrigatório) olharmos em volta e vermos o exemplo que o futebol dá ao mundo e, sobretudo, neste caso particular, ao nosso país, à população e às pessoas que vão votando, escolhendo os seus representantes e, muitas vezes (demasiadas) não têm a memória daquilo por onde passamos. Tudo fica pequeno para o ilusório tamanho maior que julgam ter.
Como eu já tenho bem mais de 50 anos, já era nascido e consciente para saber quando existia ditadura antes do 25 de Abril. Via na cara dos meus familiares e sentia em situações que depois percebi melhor. Sei o que era o país nessa altura, sei o que é o país agora. E as diferenças, não são muitas. São abismais.
Meninos como o Anisio representam isso. O que se tornou possível depois do 25 de Abril e não tenho dúvidas que muitas personagens, sejam elas candidatas a Presidente da República ou não, simples cidadãos (de todas gerações), deviam ler livros de história e ter o Anisio como seu professor.
Portugal é… todos os países!

É algo sentido que me vai no fundo da alma em relação ao que é o nosso país neste momento. Junta a paixão que tenho pelo futebol à paixão que tenho por Portugal e por todas as pessoas que vêm para Portugal exatamente porque gostam do nosso país (representa esperança para eles) e nós gostamos que elas venham para gostarem também de nós.
O futebol vive por entre tudo isto e é um elo de ligação único, inquebrantável, emocionante e forte.
Por siso, é esse menino a minha escolha como figura do ano: Anisio Cabral.





