A “zona” come o “homem”

“Ganhada a luta das marcações, o Benfica fez um jogo –armadilha perfeito no plano das recuperações, processos de construção e agressividade posicional”

Os esquemas de marcação não são, em si mesmo, sistemas de jogo mas determinam decisivamente a sua forma de se mover. O Benfica-Nápoles foi, nesse sentido prático, um exemplo perfeito.

Um confronto entre o que provoca a opção pela marcação “homem” em contraste com a opção pela marcação “zonal”.

Quando ambas são levadas ao extremo por todo o campo, enquanto uma (ao “homem”) faz que os jogadores dessa equipa corram atrás por onde os adversários andam (sem autodeterminação) a outra (à “zona” ) permite que os seus jogadores corram por onde querem e pelos espaços que abrem com os arrastamentos que uns provocam (mesmo em movimentos sem bola, levando adversários atrás) para outros entrarem.

A opção por Ivanovic previa a abertura desses espaços para atacar a profundidade que se iria abrir pela forma de Sudakov e Barrreiro se moverem, por vezes recuando e levando com eles um central e/ou um lateral da “linha de 5” italiana que ficava, assim, desmontada, abrindo fendas (quase clareiras) por onde furaram os avançados benfiquistas (sobretudo o n. 9 de profundidade Ivanovic a quem Mourinho pedia sempre para ir embora nas costas porque se quisesse antes que baixasse para receber em apoio teria metido Pavlidis ).

A armadilha interligada

Ganha a luta dos esquemas da marcação (o “zonal encarnado” sobre o “homem napolitano”) a equipa podia também ocupar melhor o meio-campo, onde metia cinco homens: ora em combinações, Enzo (livre na meia-esquerda no início de construção), ora em condução, Rios (intenso no plano táctico-técnico a comer metros em posse) e ora em compensações, Aursnes, como falso-ala vindo da meia-direita, deixando o flanco para Dedic, e chegando dentro para pressionar, recuperar e combinar, momento em que, desfeitas as marcações individuais, se juntava a Rios com bola).

Os outros dois eram os tais homens entrelinhas de recuos (arrastamentos) e avanços (rupturas). Barreiro e Sudakov, respectivamente. O Nápoles caiu na armadilha jogada atrás jogada.

Fechar e abrir espaços

Foi, a exibição melhor preparada deste Benfica de Mourinho (que entrou na cabeça táctica de Conte após o regresso deste ao sistema a “3”) conseguindo estender a noção de bloco compacto da organização defensiva (como mostrara em jogos anteriores, mesmo os mais cinzentos) até à organização ofensiva.

Não deixava o adversário sair com espaço e entrava desde trás após abrir esses mesmos espaços.

Uma exibição-armadilha tacticamente perfeita no plano das recuperações, processos de construção (sem arriscar passes em bloco baixo, escaldado pelo golo sofrido no derby, pedindo mesmo a Trubin para bater na frente) e agressividade posicional para recuperar em zonas subidas.

A natureza humana ligada ao futebol é assim. Só quando alguém (um jogador) pode servir livremente o outro (o outro jogador no seu raio de ação) é que toda a equipa se está, ao mesmo tempo, a servir a si mesma. A “zona” come o “homem”

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