A mecânica e a alma
Não existirá melhor reflexão sociológica-futebolística sobre a Argentina do que a de Scaloni, após o jogo com o México, a “primeira Final” com coração nas mãos jogada pelo onze das pampas: “Há que ter um pouco de senso comum, é só um jogo de futebol. Recebi agora ruma mensagem do meu irmão, que tinha ido para o meio dum bosque, chorando, que nem sequer tinha conseguido ouvir o jogo… não pode ser assim… a sensação de que se joga algo mais do que um jogo de futebol. Não partilho disso. E os jogadores sentem isso quanto entram em campo, o mesmo do meu irmão… e tem de sentir que é só um jogo e libertarem-se para o desfrutar”.
Nada mais verdadeiro, mas como mudar uma cultura, um sentimento, uma alma, algo que se vive desta forma dramática, na euforia como na tristeza, desde os princípios dos tempos da existência dum povo que ama o futebol como fosse parte do seu ser e afirmação? Impossível. Por isso, cada jogo da seleção argentina é… mais do que um jogo. É o teatro da vida. Evocam Gardel, Evita, Fangio, Che, Maradona e, depois, jogar. É incomensurável o peso com que jogam aqueles homens na cabeça. Vi o jogo com a Austrália e a cada toque na bola pensei nisso. Depois deste exercício, escrever só de táticas e jogo é quase sobrenatural (ver coluna ao lado).
A queda da Alemanha arrepia mas futebolisticamente este nem é o seu fracasso mais preocupante Em duas décadas, o futebol alemão já tocou diferentes extremos de demolição e reconstrução. Após 2000, reergueram-se para criar um nova variante mais técnica no seu estilo sem perder o poder físico (sempre fortes mentalmente) e de tática musculada. Foram assim campeões do mundo em 2014, interpretando na perfeição o jogo. Aquele equipa sabia tudo (mas mesmo tudo) sobre as diferentes formas de jogar futebol e tratar a bola. O que aconteceu entretanto? Não é uma resposta de síntese fácil mas nestas quedas, de 2018 e 2022, existem pistas a seguir.
Ignorou, no primeiro momento, os sinais de urgente tratamento da nova geração que surgia já nascida sem ter as mesmas bases da gloriosa história alemã (mentalidade de aço e tática musculada).

Por exemplo, Kimmich. É um craque mas de nova geração nesse sentido. Tem o “chip Guardiola” que o fez. Ao dizer que tem medo que estas derrotas sejam personificadas nele (num meio-campo onde Kroos não quis estar) está a dizer, no fundo, o que falta em termos de base genética a este novo grupo da seleção germânica em relação a anteriores (após um Mundial onde, vendo com exatidão, até jogou bem e só caiu por falhar 30 minutos dum jogo incrível com o Japão). Na mesma linha, Gundogan, Goretzka e, em termos de deficit de qualidade, uma defesa que (findo o ciclo-Hummels) não tem, de Sule, Rudiger e Schlotterbeck, até Raum e Klostermann, o mesmo gregário da história.
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Os “reforços” mais de arte passaram a vir do lado multiétnico (Sané, Gnabry, Havertz, Musiala). São lindos de ver mas são craques de contra-história alemã. Tinham de ter esse enquadramento de estilo tradicional e não serem eles próprios o núcleo no onze a quem pedem para resolver jogos.
Por fim, as constantes mudanças de sistema (ente defesa a “3” e variações de 4x3x3 ou 4x2x3x1) que impediu criar rotinas de jogo e a falta dum ponta-de-lança “bombardeiro”. Esta crise do nº9 alemão com nível indiscutível de seleção já é, porém, antiga, tem mais duma década e só o oportunismo de Klose disfarçou.
Quando ele acabou, a posição ficou um deserto até neste Mundial lá jogar Muller (que já se retirara da seleção e é antes segundo-avançado solto) e o resgate dum nº9 que passou mais tempo na II Divisão, Fullkrug, e estrou-se, aos 29 anos, na seleção (e, quando entrou, até marcou um golo-bomba à Espanha).
Não duvido que a Alemanha voltará forte mas esta atual realidade não poderá ser ignorada porque, ao contrário do passado em que nem mexiam um nervo da face no pior dos cenários, estes novos jogadores alemães já deitam as mãos à cabeça no relvado quando algo corre mal.





