Com sombra de fado

A nossa seleção mais do que uma equipa do treinador, tem de ser uma equipa dos jogadores                                                                                                    

O futebol sabe como encontrar os seus melhores amigos. A bola, nessa busca, é um ser vivo que ganha diferentes formas de vida em função de quem a recebe e como a trata. Acredito que também tenha sentimentos e, assim, fique triste quando, de repente, vê que um desses melhores amigos está sentado no banco e não vai brincar com ela.

Foi o que senti quando, na Alemanha, o onze de Portugal entrou em campo e Vitinha não estava nele. Um sentimento de vazio que ficou mais estranho vendo como outro bom amigo (da bola e do Vitinha, daqueles que anda sempre junto) iria jogar longe do centro para ser latera-direito no sistema.

João Neves não é, porém, jogador de se queixar dessas coisas pequenas como a tática e, assim, começado o jogo, soube, sem deixar de cumprir com a sua posição (sobretudo quando a bola estava a posse adversária) ir para os melhor locais para quando ela voltava à nossa posse, ajudar a equipa a mover-se com ela.

Desta forma, mesmo na fase de menor entendimento do jogo, a seleção nunca o deixou de controlar.

O “jogo de posição” (isto é, a criação de sucessivas linhas de passe em função da movimentação, sem bola, e opção, com bola, dos jogadores relacionando entre si passe-recepção-passe) é um conceito que molda a inteligência jogadores.

2

O que não falta a Portugal são jogadores inteligentes. É a grande arma de qualquer sistema. Mesmo os disfuncionais que tira do onze os melhores jogadores ou mete outros em posições disformes.

Pressentíamos o perigo a cada arrancada de Pedro Neto pela faixa, arrancando desde longe, mas aquele futebol de correrias não é nosso.

Por isso, deixamos crescer um adversário alemão deformado, das seleções germânicas mais fracas (no físico e na qualidade futebolística) que já vira a este nível, até fazerem um golo (através, claro, do seu melhor jogador, Wirtz, uma ironia anti-atlética).

Foi quando o nosso jogo acordou desde o banco.

3

Martinez fez as substituições que o onze inicial já pedia. Podemos dizer que teve esse mérito de perceber (invertendo a marcha tática em que colocara a equipa em campo) mas o risco de ficar a perder na Alemanha, mesmo percebendo que tínhamos melhor equipa, é, em geral, irreversível.

Não foi. Em meia-hora, os melhores amigos da bola e do futebol, colocaram as coisas no sitio certo. Desde a bússola de Vitinha, o “jogo de posição” de condução-passe (entrega, pede de volta e entrega outra vez logo a seguir) passou a surgir. A ação um-para-um do extremo que mais do que só correr, dança em frente aos defesas, abre espaços que pareciam muros, destapou-se nos gestos do Chico Conceição. Além disso, também entrou um lateral-direito de pele natural, Nelson Semedo.

Meia-hora para virar o jogo com sombra de pecado, culminado num remate (mais um passe desta vez à baliza) do eterno Ronaldo.

Que se pede a um selecionador?

  

Quando Nagelsmann nasceu, o futebol alemão já deixara a génese da força como principio e fim para estar em campo e amassar os adversários. Entretanto, criou maior respeito pela técnica e juntou outros conceitos que ainda o tornaram mais forte mas, nesta fase, é evidente a crise geracional que atravessa em comparação com os heróis da sua história.

Nagelsmann é um selecionador apanhado na curva do tempo que (com um onze teutónico estranho) admitiu sem pestanejar que Portugal foi e é hoje melhor.

Ver como os alemães perdem assim a sua arrogância história, perante o nosso “futebol dos baixinhos” que faz a bola conhecer todos os pedacinhos de relva com a equipa a viajar junta atrás e à frente, diz tudo sobre o que a nossa seleção tem de ser todos os jogos.

Mais do que uma equipa do treinador, ser uma equipa dos jogadores. Não se trata, com isto, que o treinador deixe de ter a sua ideia estratégica para cada jogo, mas sim que nunca desrespeite o nosso estilo e tudo o que faça seja para garantir que ele vai aparecer em campo na sua melhor expressão.

Não peço mais a um selecionador que não tem tempo para treinar. Apenas montar a coreografia certa para o nosso onze com os melhores jogadores. E a consciência que, às vezes, só meia-hora não chega para ganhar (dando a volta ao resultado) perante estes adversários, mesmo de deformados.   

  

Últimas