Como inventar um N.º9

De médio-ofensivo a ponta-de-lança. A transformação de Til no PSV, enquanto o Ajax move-se com Oscar e Godts
 

 

O jogo tem de ter uma unidade indivisível. Não há momento ofensivo sem momento defensivo (e vice-versa). Ambos constituem uma unidade funcional para uma equipa e todos os jogadores, posição por posição. Não é fácil, no entanto, conseguir criar essa mentalidade dupla em muitos jogadores.

Os treinadores são, nessa situação, como os que devem guiar na “descoberta guiada” . É um caminho de ensinamento (e descoberta) indispensável na formação mas que também se pode detectar no futebol adulto ao longo da carreira.

É o que penso vendo nesta altura como Guus Til, médio-ofensivo por natureza, se tornou esta época no ponta-de-lança do PSV. Aos 27 anos, tem uma carreira de “médio que faz golos”, entrando muito bem desde trás, mas a sua pele, entre nº9,5 e nº10, era mais duma espécie de orquestrador-rompedor.

A aposta em Guus Til

A opção inicial era Pléa (contratado para substituir De Jong) e, com a sua lesão, foi, depois, o americano Pepi. A equipa, no entanto, não correspondia no espaço do golo.

A opção por puxar Til para o centro da frente do ataque surgiu em Leverkusen, na Champions. Para o técnico Peter Bosz, estava coloca-lo como “falso 9” mas, no jogo, as suas movimentações transformam-no porque embora nunca se deixe tornar uma referência de marcação fixa, ele surge nesse espaço como um especialista finalizador em muitas jogadas.

Mais que um ponta-de-lança, é um avançado-centro móvel numa bela equipa de “futebol circular” holandês com trocas posicionais dentro dum 4x3x3 que sai a jogar desde trás com Veerman e Mauro Junior, soltando o marroquino Saibari como médio ofensivo vagabundo. Nessa dinâmica, Til confunde todas as defesas e fixou-se como o “nº9 que “em vez de estar, aparece no espaço”. Uma missão perfeita para as suas características, com alas a apoiar, sobretudo Man, a flectir desde a direita.

Parrot no AZ

A Liga holandesa continua a cultivar um estilo tático aberto. A qualidade do tal jogo como “unidade funcional indivisível” depende muito do traço dos jogadores e imperativos táticos. O Feyenoord joga muito bem também num 4x3x3 de largura (com o eslovaco Sauer a inventar desde a esquerda) mas não é tão compacto, na ideia de ligação entre-sectores, como o PSV.

Gosto mito de ver jogsr o AZ de Maarten Martens, também em 4x2x3x1 com “10” clássico, Mijnans e alas abertos para servir um nº9 que se ornou herói nacional na Irlanda, Parrot. No futebol holandês, mais do que um puro finalizador, ele joga mais em apoios, procura combinações e nota-se mais o passe (o jogo coletivo que o faria, até, jogar melhor em dupla atacante) do que no jogo mais aguerrido, de duelos/segundas bolas, em que luta (perdão, joga) na sua seleção irlandesa.

Como joga o Ajax de Godts

O Ajax busca manter sempre a sua filosofia mas o nível qualitativo da equipa desceu muito. Heitinga, o treinador despedido, foi atingido por essa realidade que nunca quis contrariar fazendo a equipa jogar outro futebol que não fosse o da marca-Ajax. Não conseguia, porém, a posse de bola indispensável para o fazer.

Olhando o seu onze-base, destaco dois jogadores: o israelita nº10 Oscar Gloukh e um extremo destro de velocidade vertical na esquerda, o belga Godts (com poder de desequilíbrio e desmarcação, com passe e remate). Com 20 anos, um talento de técnica em movimento com a baliza (futebol objectivo) sempre em mente nas jogadas.

No papel joga em 4x3x3 (defende em 4x4x2) mas abre de forma assimétrica as faixas, pelo que na direita, joga em geral um médio que busca jogo mais interior (soltando as subidas do lateral Gaaei). Quem faz, muito bem, a tal relação faixa-zona interior pensando como medio-centro com bola, é o cerebral Regger.

O canhoto Taylor continua a ser o principal nº8 condutor-organizador (com visão de passe) e Weghorst o ponta-de-lança possante a quem custa segurar uma bola mas não hesita quando ela surge no seu metro-quadrado de área.

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