Como transformar o jogo no que queremos

A capacidade de Portugal em tirar o controlo do jogo do estilo de posse espanhol

A decisão por penaltys após um grande confronto de estilos num jogo que foi sendo, com o decorrer do tempo, mais o que Portugal queria. Esse é o grande mérito tático de Martinez. Podia ter tido, naturalmente, outras opções no jogo (onze inicial e substituições) mas foi capaz de tirar o controlo do jogo ao estilo da Espanha. Não vejo outra seleção que tivesse essa capacidade nessa Final.

O momento em que senti a poder mudar? Simples. Foi quando estava quase impossível vermos a bola quando Nuno Mendes apanhou a defesa espanhola desconectada por um instante e arrancou com ela para entrar na área e fulminar a baliza. Era um golo que podia mudar a postura da nossa seleção perante o jogo.

Mais difícil seria mudar o jogo todo. Isto é, também mudar o comportamento espanhol e meter-lhe algum receio para não revelar tanta precisão com a bola e avançasse com ela sem medo de a perder. Estes jogadores espanhóis cresceram todos dentro da “ditadura do passe” mas os jogos tem outros factores de decisão. Foi o que sucedeu.

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João Neves surge, no papel, como lateral-direito mas a ideia de Martinez é que ele, em posse, se meta por dentro e assim quase faça um quadrado a meio-campo com Vitinha a seu lado (redesenhando dessa forma, com a equipa em posse, o duplo pivot que fazem no PSG) e Bernardo Silva solto a subir, ficando perto de Bruno Fernandes mais na frente, caindo depois um deles entrelinhas.

As faixas ficavam para extremos puros: Pedro Neto, em esticões de velocidade em cima de Mingueza, na esquerda e Chico Conceição na direita, um-para-um com a garra e o cabelo de Cucucrela.

O mais prejudicado ofensivamente desta dinâmica era Nuno Mendes que funcionava como terceiro elemento na “saída a 3” e subia menos porque de outra fora ficariamos descompensados atrás no momento da perda. Uma limitação de dinâmica posicional que tirava o melhor lateral-esquerdo do mundo da atualidade (não vejo ninguém melhor que ele) de muitos ataques. Bastou, porém, ter dois na medida e aceleração certa para fazermos dois golos.

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Martinez pesou todos estes prós e contas táticos quando mudou ao intervalo metendo um lateral-direito de verdade, Nelson Semedo, para fechar e subir pela faixa. Passou a abrir com Bernardo Silva “de fora para dentro” desde a direita e passou a formar a dupla de médios-centro de forma natural no sistema (com Ruben Neves junto de Vitinha em vez das movimentações de Neves que funcionava com bola mas descompensava defensivamente sem ela deixando Nico Williams com espaço a mais).

Melhorou a estrutura, melhorou a dinâmica. Vitinha subiu uns metros para pressionar mais alto a saída central de bola espanhola (quando sentiu o desgaste, baixou e ordenou defensivamente) e a faixa-direita ficou melhor coberta, liberando mais, na esquerda, Nuno Mendes.

 O segundo arranque demolidor que fez voltou a espantar a defesa espanhola e desta vez deu o golo (porque Ronaldo, sendo só ponta-de-lança fixo, sem lhe pedirem recuos de apoio para ligar, sabe sempre onde estar e a bola, quase por respeito, vai ter com ele).

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A Espanha tem um médio que joga com todos os manuais da universidade do futebol baixai do braço, Pedri, mas ao querer, na segunda-parte, tomar conta do jogo em “modo de gestão” não conseguiu voltar a ter as acelerações certas de passe-desmarcação nos últimos 30 metros porque a organização defensiva portuguesa (acertada com as alterações ao intervalo) nunca mais dançou. A posse já não feria como na primeira-parte.  

O “chip” ainda mudou com Isco, , um inventor de lances de ataque e mantendo sempre o “radar-GPS” de Zubimendi desde trás, o onze espanhol recuperou o centro de jogo mas sentiu demais a falta dos desequilibios do génio de Yamal, para chegar perto do golo.

Um controlo que levou o jogo para prolongamento mas já sem ter a sua arte de posse-passe nos tempos certos. A técnica (e a cabeça) acabaram o jogo com a língua de fora

MOMENTO-CHAVE

Mudanças de velocidade e defender bem 

Claro que o momento-chave é o penalty falhado por Morata, rematou denunciado e Diogo Costa, aguentou bem e fez uma das defesas mais importantes da história do futebol português.

Num confronto entre duas equipas que a partir de certa altura do jogo, sentindo muito o desgaste físico, tinham de saber jogar cansadas, ter para meter jogadores mais capazes de ativar a velocidade, pode ganhar, com esse factor, uma vantagem que pode ser decisiva.  Martinez tentou ganhar o jogo dessa forma.

Portugal, que já começara com dois desses aceleradores-extremos de inicio, Conceição e Neto, soube na segunda-parte lançar Rafael Leão, visando cair em velocidade em cima das marcações espanholas desgastadas e (além de Nuno Mendes sempre com o timing certo de fazer essa mudança de velocidade quando subia) ainda meteu Jota na segunda-parte do prolongamento.

Com Yamal desinspirado e substituindo Pedri (ambos os craques espanhóis, fisicamente estourados) a Espanha procurou, nesse contexto de desgaste, usar a sua melhor ama da posse de bola para controlar o jogo. Refrescou o meio-campo (com Merino e Isco), tentou baixar o ritmo de jogo para o controlar mas a velocidade/eficácia do passe que deveria ser a outra forma de aumentar a rapidez das jogadas (através da velocidade da bola) nunca surgiu nos momentos certos. Portugal controlou esses últimos 30 metros, defendendo bem e assim ganhou taticamente o jogo.

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