Como Courtois explica a técnica de com dois metros ir tão rapidamente ao chão e junto à relva fazer defesas fabulosas todo esticado

É comum quando se vê uma grande defesa falar-se no instinto. Na velocidade de reflexos. Tudo isso até pode existir, no futebol como em tudo na vida, mas em geral, falando dos grandes guarda-redes, quando vemos essas ditas “defesas impossíveis” está sobretudo muito de técnica de movimentos, colocação e reação para ir buscar essa bola que já parecia não ter hipótese de ser parada.
Em relação aos guarda-redes mais altos, sempre ouvi dizer que o mais difícil para eles é ir ao chão, pelo que o melhor são os remates fortes , rente a relva, porque que não tem tempo de ir lá em baixo.
Faz sentido. Mas, de repente, vemos Courtois (com 2 metros) a fazer essas defesas , quase em voo rasante a ir à relva buscar em mergulho a bola, corpo subitamente todo esticado , e achamos que desafiou as leis da física.
Fez isso no último jogo da Champions a um remate de Rios. Parecia impossível chegar desde aquela sua altura até lá baixo tão rápido mas, no fim do jogo, quando lhe perguntaram por essa defesa decisiva não falou em instinto, agilidade (ou sorte). Falou numa técnica de defender estas bolas especifica para alguém fisicamente como ele. É a chamada “sweep leg save” (em tradução livre, “defesa varrer da perna”).
Vendo que não tem tempo para o mergulho tradicional, o guarda-redes não pode querer ir ao chão com o apoio do pé firme na relva. Pelo contrário, tem de sair rápido do chão e mergulhar diretamente com o joelho. Como? “varrendo” uma das pernas para o lado. Elimina o espaço entre as pernas e no chão e assim as luvas cheguem no tal voo rasante veloz à relva para travar a “bola impossível”. Só vendo se percebe essa técnica fabulosa.
Escola Donnarumma

Courtois, no auge dos 33 anos, disse ter aprendido essa técnica de defender no Chelsea. Foi entre 2014 e 2018 (vindo do At, Madrid para depois ir para o Real). Até esse momento não a dominava e apesar de tantos elogios e do guarda-redes que já era, ainda não tinha esta fórmula para ir buscar estas bolas.
No admirável mundo dos guarda-redes do presente, quem, porém, mais se tornou referência nesse gesto técnico e defesa foi Donnarumma (1,96m). Mesmo mais novo (27 anos) que Courtois Esse seu gesto “varrer a perna” está nos manuais das melhores universidades de guarda-redes.
A escola italiana não tratou só de formar grandes defesas-centrais (pátria do “libero”, o defesa-livre em italiano) mas criou uma forma diferente, mais evoluída na personalidade de estar na baliza. Mesmo os mais loucos que nos recordamos dos anos 80/90, como Zenga, quando estava na baliza sabia como ir às bolas mais difíceis. O crescimento físico de guarda-redes como Toldo, Pagliuca ou Buffon, foram incentivando um gesto técnico mais especifico.
Por isso, Donnarumma que já “nasceu grande” chegou à baliza da equipa principal do Milan aos 16 anos (!) e já revelava toda esses novos “atributos de borracha” nessas defesas.
A evolução do treino especifico do guarda-redes não para. Podem hoje falar muito neles pela questão de saber jogar com os pés (inicio de construção como mais um jogador de campo) que será sempre por estas defesas fantásticas que serão recordados.
Após sofrer, ficar de pé!
Mas, falando de guarda-redes na relva, recordo a razão porque Renato Cesarini, um dos maiores velhos treinadores da história do futebol argentino, dizia que para saber se um guarda redes era bom ou mau, nem precisava de vê-los jogar. Bastava ver as suas fotos após sofrer um golo: Se estão sentados de “culo”, não servem. Se estão parados, de pé, são bons.
Amadeo Carrizo, fabuloso guarda-redes do River Plate dos anos 50/60 falava no presente de golos que sofrera há 25 anos, porque, na cabeça dele, continuava a descobrir a forma de os evitar. Era uma dívida que tinha para com o seu orgulho. Seja como for, quando os sofreu, dizia que ficou sempre de pé. Como os grandes!






