A questão, perturbante, tornou-se quase uma afirmação. Portugal jogou melhor (exibição fantástica) porque jogou sem Ronaldo. A tese baseia-se em que, com a sua presença, os outros jogadores ficavam condicionados, no jogar e, sobretudo, no momento de finalização, sentindo a obrigação de lhe passar a bola. Sem ele, libertaram-se, jogaram tudo o que sabem e foi o espetáculo que se viu. É mesmo assim?
Sinceramente, acho que nunca foi diferente. A minha opinião baseia-se em algo muito simples, como sempre referi: Ronaldo nunca nos fez jogar melhor. Ronaldo fez-nos ganhar. É muito diferente. Por isso, ao longo dos anos, fui condenado à fogueira patriótica quando perante a pergunta clássica (como tão sem sentido por serem tão diferentes) qual era melhor, Messi ou Ronaldo, eu respondi sempre (mesmo no dia seguinte a Ronaldo ter ganho a Bola de Ouro) que Messi.
Porque Messi era (é) jogador de campo todo, podia ser Xavi quando quisesse, médio, organizador, ou, claro, também goleador. Continua a ser assim. Ronaldo nunca foi isso. Nunca foi esse jogador de fazer jogar toda a equipa. Nunca o imaginámos (num paralelo com equipas de Messi) a ser Modric. No passado quase origem, era também extremo de finta mas com o tempo tornou-se num monstro goleador, o maior e melhor finalizador de todos os tempos.
2.
O que mudou agora em Ronaldo foi a perda dessa capacidade finalizadora. E, sem nos fazer ganhar, não iria ser agora que nos iria fazer jogsr melhor. Ou seja, esvaziado o primeiro fator mortífero, o segundo destapou-se de forma evidente, até que Fernando Santos tomou (talvez, admito, impulsionado pela questão disciplinar) a decisão de o retirar do onze titular (numa decisão, não duvido, que teve como principio questões técnicas) para a equipa jogar melhor e apostar noutras formas preferenciais de finalização.
Foi, não só a explosão-Gonçalo Ramos, mas sobretudo toda a equipa viajando junta a caminho da baliza com os passes e movimentos alegres, de Otávio, Félix, Bruno Fernandes e Bernardo Silva a “10” (que bonito ver todos eles juntos no onze, alguns com a “roda-baixa” tipicamente lusa, mais franzinos que músculos).
3.
E, assim, de repente vi-me fora da fogueira patriótica a, paradoxalmente, explicar como Ronaldo devia continuar a ser titular (porque esperava, e espero, que a sua veia finalizadora volte, até porque o que me espanta é este eclipse ter sido abrupto –ainda a época passada num Manchester problemático fez 24 golos em 37 jogos- e não progressivo como seria mais natural).
O tempo é o único inimigo que nunca conseguiremos vencer. Ronaldo está confrontado com isso mais do que com um treinador que não o mete, Santos ou Ten Hag, ou um modelo de jogo. A seleção, essa, está perante um novo ciclo (como o jogo com a Suíça mostrou). É irreversível.





