
Acabo de ler a autobiografia de Van Basten e foi como entrar noutra dimensão, a escondida, duma vida dentro do futebol. O titulo do livro, Frágil, revela por só a atmosfera que percorre todas as páginas (a vida, afinal) de um dos mais fabulosos jogadores de sempre.
Mais do que os triunfos, Van Bastem percorre as fragilidades que sempre se
ntiu. A começar, claro, pelo terrível lesão no tendão que, desde muito novo o atormentou (a primeira entrada violenta por trás que sofreu ainda a despontar no Ajax num jogo com o Groningen) até ter de deixar verdadeiramente de jogar com 28 anos, terminando na sua personalidade turvada desde cedo em família e que sempre o acorrentou.
É, por isso, ao contrário da maioria destas obras sobre antigas figuras do futebol que glorificam seus feitos e forças, um livro sobre as suas fraquezas. É por isso uma lição de vida real. Sobre alguém que, nas dores físicas e emocionais, apenas sempre desejou sair de dentro da sua cabeça.
2.
Fraquezas que, por entre tantas histórias, surgiram quando foi pela primeira vez convidado para ser treinador e duvidou que tivesse capacidade porque uma coisa era ser jogador outra era saber ler e decidir sobre o jogo da equipa.
Era o chamado “síndroma do impostor” que voltaria a sentir quando foi convidado para selecionador da Holanda e também achava não estar à altura (nunca se sentiria confiante durante esses anos) ou quando já no cargo não conseguiu resolver um diferendo com Van Nistelrooy, deixando-o sem jogar e só sendo capaz de falar com ele tempos depois, já fora da seleção, reconhecendo que errara na avaliação que fizera dele.
Noutra ocasião, após quatro horas de reunião num hotel em que acordara um contrato de quatro anos para treinar a seleção chinesa, passou depois a noite deitado a olhar o tecto a sofrer só de imaginar viver tanto tempo na China longe de casa e ligou ao empresário logo de manhã dizendo que afinal não podia aceitar deixando os diretores chineses furiosos.
3.
Uma série de situações, mais de vida do que de futebol, com as quais não soube lidar como deixar de treinar o Ajax e só voltar no Heerenveen onde estaria mais tranquilo até que num jogo, com derrota, lhe chamaram “falhado” desde a bancada e isso marcou-o para sempre. Não podia entender, nem aceitar, como após ter sido o melhor do mundo e ganho tudo como jogador acabava a ser insultado como nada disso tivesse acontecido. Não o conseguia aceitar. Aquele grito perseguia-o por todo lado dentro da sua cabeça. E afastou-se.
4.
Recordo Van Basten como o futebolista mais elegante que alguma vez vi jogar. Mais do que correr, tinha nesses seus movimentos a perseguir a bola, um porte de bailarino. No fundo, esse estilo que quase o fazia parecer mover-se em bicos de pé já resultava dum instinto de proteção em relação aos tendões do seu calcanhar, protegendo-se da dor enorme que sentia se pisasse forte no relvado ou como forma de esquivar-se às entradas duras dos defesas.
Era quase como Nureyev a jogar com a camisa nº9 da seleção da Holanda ou do Milan, onde fez jogos de encantar e terminou numa Final da Champions, em 93, que jogou quase por obrigação conta o Marselha mas, confessa, mal conseguindo mover-se com as dores. Perdeu o jogo (0-1) sem verdadeiramente o ter conseguido jogar. Esteve em campo a sofrer o tempo todo e mal tocou na bola.
5.
Atravessou, na vida, todo o tipo de emoções. Crueldade e incredulidade. Agora que a (sua) guerra já acabou há vários anos contenta-se com o simples facto de não sentir dor (o tendão, desfeito, foi fixado numa ultima complexa operação). Aprendeu a lutar para… não lutar contra si próprio, fantasmas e medos.
É um livro que não tem respostas. No fim de contas, todos buscamos os porquês das coisas nos terem acontecido duma forma e não de outra, todos buscamos um sentido. Raramente o encontramos. Só inquietações. Frágil.