“Busquets anuncia a retirada e Dembelé vence a Bola de Ouro! Os novos tempos não querem ideologias”
Talvez o mais indicado seja começar por entender o Mundo. Afinal, o futebol que se joga nasce como seu produto, filho das épocas e inspirações criativas que os marcam. Como existiram Picasso e Dali, como se viveu o Renascimento e o Barroco, também existiram Ronaldinho e Messi, e também vivemos de técnica ou de mais tática.
O tempo que vivemos é quase uma ironia mesclada de tudo isso. Na mesma semana, vimos Dembelé erguer a Bola de Ouro e o anuncio da retirada de Busquets, após o ocaso em Miami. O futebol perde referências claras num caso e no outro.
O futebol “dandy”
Lembro de Menotti contar que quando viu pela primeira vez Busquets a jogar, então no emergente Barcelona de Guardiola, gritou para quem estava perto vir a correr para a televisão e confirmar: “Olhem bem, descobri um jogador duma espécie desaparecida!”
Naquela equipa já estavam Xavi, Messi e Iniesta, mas em que ele se fixara foi no jogador que fazia os outros jogar quase só com o mexer dos olhos e um simples mover do pé. Busquets era um “dandy” a jogar futebol desde a posição mais tática da história do futebol (o pivot, medio-centro à frente da defesa, novo construtor renascido).
Não tinha sequer físico musculado de jogador. Era uma esguio inestético que se transformava com a bola. Farol e âncora incorporava o que Menotti em tempos idos começara a combater quando, mesmo enquanto jogador, lhe gritavam para ser mais rápido atrás da bola, ele respondia com ar insolente: “Era só o que faltava que agora para jogar bem futebol, tivesse de correr!”
Busquets era essa representação de “El Flaco” em forma de perfeição. Mudou o conceito que então a posição tinha e abriu caminho ao “mundo Pirlo” em Itália. Na Argentina, já se movia o holograma Redondo mas foi Busquets, porque integrado numa equipa que girava, rodava, movia-se e avançava (ao ritmo dos mil e um passes) até ao golo, que se tornaria a referência a seguir.
Sem ele, mais o império dos “duplo-pivot” (dois jogadores a fazer o trabalho que antes era de um só naquele espaço porque há temor de desequilíbrio defensivo) esse referente parte definitivamente.

Os tempos de Dembelé
Dembelé recebeu a Bola de Ouro e olhou para ela como fosse um objecto misterioso que viera parar às suas mãos. Maior ironia foi ela ter-lhe sido entregue em mãos por Ronaldinho, um símbolo do mais criativo e milaborante “jogo bonito” do passado que nos foge. Jogadores que são manuais de passe (de Pedri a Vitinha) ou de arte em movimento (como Lamine Yamal) assistiram com a mesma expressão de vazio.
Dembelé é um jogador que seduziu quando apareceu por ultrapassar os adversários quase como um fantasma a passar por eles pela faixa direita. É uma metamorfose ambulante que um dia explicou que “sou canhoto mas chuto melhor com a direita”.
Só isso merecia um prémio mas nunca foi consensual até que esta época passaram a elogiá-lo. Não porque os seus arranques, fintas e golos ganhassem jogos, mas porque tornar-se também um soldado de pressão no PSG que Luís Henrique montara (desmontando o mito Mbappé, o “super-herói” que não pressiona).
É verdade que Dembelé, percebendo as leis que passavam a dominar o “processo parisiense”, tornou-se também um “cão de caça” de pressão alta. A bola ainda não tinha saído dos pés do guarda-redes para começar a construir apoiado com os defesas, e ele já assumia uma posição de arranque quase como um corredor dos 100 metros na pista antes do tiro de partida.
“É uma máquina”, disse Hakimi, lateral-direito seu colega no PSG. Eu diria o “futebolista-robot” que a ideologia-Luis Henrique preconiza. A mesma que teve Vitinha e João Neves na “torre de controlo” do meio-campo. Descubram então onde está o cérebro de tudo isto.
Os novos tempos consumistas não querem ideologias. Não bebem vinho tinto e fumam Gitanes. Tiram fotos para o “Instagram” e bem Whisky com Coca-Cola. Já não vão nascer mais como Busquets.






