A Roma volta a lutar pelo Scudetto com o treinador mais fiel às marcações individuais e à tática do Calcio
O homem e a tática. Gasperini é hoje, aos 67 anos, o mais legitimo herdeiro da ideologia “italiana tacticista” que marca a história do jogo. Depois de uma vida com nove épocas na Atalanta, transportou o seu velho testamento da “marcação ao homem” por todo o campo para a Roma e devolveu ao clube a ambição de lutar pelo “scudetto” que foge desde o reino de Capello em 2001.
Não pediu grandes contratações, apenas exigiu condições de autonomia tática para colocar em prática a sua ideia de jogo que, acredito, terá antes também falado com os capitães de balneário, os jogadores, para saber se também alinhavam com ela porque é um choque tremendo de exigência que muitos não estariam dispostos a aceitar.
Ou seja, sem ter o compromisso dos jogadores, esta fórmula tático-militar do “velho Gasp” não teria hipótese de sobreviver em campo. Os jogadores aceitaram e aí está a Roma de regresso como “loba do Calcio” .

O “caminho do Gasp”
O sistema de três centrais (3x4x2x1) é apenas um desenho no papel para uma ideia que tem como base a ditadura das marcações individuais, um futebol de duelos.
É um legado longo que começou a escrever taticamente com a equipa Primavera do Génova e depois, quando pegou no Crotone na Série C (III Divisão) em 2004, seguindo-se o Génova (onde passou no conjunto oito anos) na Série B, depois na A e por fim, na Atalanta, na Europa, até à Champions, a consagração do método.
Não gosta que falem sempre dele por esta questão tática mas ninguém consegue olhar as suas equipas sem ficar hipnotizado pela “filosofia-Gasperini” que fez escola na Europa vendo o coletivo das equipas mas também analisando as missões individuais que cada jogador tem (por isso, a responsabilização individual facilmente detestável quando falha alguma peça no funcionamento da máquina).
Com base numa resistência física impressionante, as suas equipas não falham um metro no rigor do sentido posicional de marcação. O jogo “sem bola”.
Quem se move nesta Roma

Nesta Roma, partindo da defesa, Celik (que pode ser lateral ou central pela direita) junto com Ndicka e o patrão Mancini, são o trio de centrais que garante a base da fórmula de jogo em campo. Deu mais protagonismo de contenção e primeiro passe de transição a Cristante e faz de Manu Koné um soldado do meio-campo, um sector de controlo de espaços em antecipação onde também cresceu muito o trabalho de El Aynaoui.
Na frente, com as constantes lesões de Dybala, emergiu outro maior protagonista de mobilidade: Matias Soulé. Tem a técnica apurada sul-americana e agressividade a invadir espaços em cima dos centrais adversários. Começou com o possante nº9 ucraniano Dovbyk, mas, aposta agora numa mobilidade atacante diferente, com o pequeno Baldanzi a mover-se no ataque, onde, para a ligação entre-sectores, converteu Pellegrini à sua filosofia.
O ensinamento físico-habilidade
Gasperini não é, no entanto, um pensador do jogo para o no tempo: “O futebol mudou muito, ficou muito mais difícil porque hoje enfrentas sempre um pressing intenso que antes partia de mós e agora parte no jogo de cerca de 80% das equipas. E este não é só uma realidade italiana, todos investem nisso”.
Nesta frase, Gasp vê como a pressão passou a ser a “password” para entrar no futebol moderno de alta intensidade competitiva que antecipava desde há vários anos nas suas equipas mesmo em divisões secundarias ou longe de lutar por títulos como agora. “No futebol, existe a físicalidade e a habilidade, mas esta destreza somos nós latinos que a tempos, os espanhóis foram bravos a aproveitá-la não olhando só à estrutura física. Respeitaram a própria identidade. Nós, em Itália, quisemos olhar mais para os nórdicos e acabamos goleados pela Noruega!”
Ou seja, a sua ideologia “ao homem” não implica uma questão atlética por natureza mas sim uma mentalidade e inteligência competitiva de agressividade posicional nos espaços. Chegar primeiro é a chave.
Gasperini tem contrato de três épocas com a Roma. Quando o terminar, terá 70 anos. O seu testamento estará (quase) completo.
