Eriksson: (1948-2024): A ideia e o poder de mudar mentalidades

                                                                                                

 

Está cada vez mais distante no tempo, mas quem viveu esses anos 80 não esquece o impacto que teve na mudança de ciclo do futebol português. Quando chegou, Eriksson trouxe uma nova ideia e forma de encarar o jogo (e o treino) que, ligada a uma renovação de mentalidade, provocou uma revolução futebolística a todos os níveis. Estávamos em 82. Mais que grandes mudanças táticas, trazia uma filosofia de futebol sem amarras que soltava o talento dos jogadores muito inspirado, como disse ao chegar, no que era a mentalidade inglesa do Liverpool desse tempo, definindo como triângulo do bom futebol: a velocidade, força e mente. O Benfica que montou logo a seguir (e foi finalista da Taça UEFA de 83) tinha tudo isso. Ao mesmo tempo, no Porto, a ideia de Pedroto, com a escola do nosso futebol de técnica de pé para pé mas metida noutra revolução, a fundação da revolta do carácter portista, caminhava também para o auge. A técnica que, disse Eriksson, não se atreveria vir para ensinar ao jogadores portugueses porque nisso, fabuloso, eles dominavam na perfeição.

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Ainda hoje penso no que seria de mais rico no debate do nosso futebol se Eriksson e Pedroto tivessem coexistido mais tempo, competindo e debatendo o jogo. Só conviveram uma época, 82/83 (quando Pedroto, já prevendo esse duelo aceso, falou após empatar na Luz no tal “rapaz alto e loiro”, era Maniche, para quem aquele Benfica metia tantas bolas área). O “Mestre” partiria, porém, pouco depois (já não estaria, corroído pela doença, no banco na Final da Taça das Taças de 84).  Agora que Eriksson revela, já retirado, estar a disputar esse mesmo jogo além futebol, o jogo da vida, recordar estes tempos é perceber verdadeiramente o que é o futebol e como preciosos podem ser os homens e as suas ideias para mudar, do campo à mentalidade. Só os eleitos, o conseguem, e a sua influência (memória e legado) perduram no tempo.  Como precisávamos hoje de homens desses. Avançados o tempo. Até hoje.

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40 anos depois, quando vejo equipas ditas mais pequenas (fora do circulo dos grandes) a querer jogar um futebol proactivo com bola, assumindo correr riscos (tantas vezes excessivos) com isso, revejo como tudo começou a mudar a partir daí. Mudança lenta, que correspondeu, no fundo, ao nascer de novas gerações de futebolistas, não com mas técnica, mas sim com outra (maior) mentalidade competitiva, sem complexos de inferioridade que sempre tolhiam as equipas que, nesses velhos tempos, defrontavam os grandes. Eram raras as exceções de se queres ser como os grandes, joga como eles. Para isso, porém, era preciso criar uma nova tipologia, protótipo, de jogador português (para além, claro, da evolução de estruturas e métodos de treino). Tudo começou assim  a história moderna do nosso futebol.