O  caçador de utopias impossíveis  

Ele foi ao sótão do futebol paraguaio onde estavam guardadas as coisas antigas

 

 

O titulo desta página é também de um livro, “Cazador de Utopias Imposibles”, que saiu em 2022 onde o argentino Gustavo Alfaro descreve a sua estratégia para levar o Equador ao Mundial desse ano. Mais do que relatar incidências de jogos, Alfaro descreve a mobilização dum grupo.

 

É um livro de futebol que entra por outras áreas como poderá ser o próximo se escrever sobre a sua atual campanha à frente da seleção do Paraguai na qual pegou quando apenas tinha cinco pontos e estava no fundo da classificação para o apuramento para 2026.

 

Nessa altura acabara de orientar a Costa Rica na Copa América. Em sete jogos na orientação do “onze guarani” mudou o curso do destino que há 16 anos não leva o Paraguai ao Mundial (em 2010, então com o “Tata” Martino). Nesta caça-resgate, Alfaro já conquistou 16 pontos de 23 possíveis (num percurso incrível de vitórias, entre elas contra Argentina e Brasil, e empates, no Uruguai e na Colômbia) passando para quarto lugar no apuramento.

 

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Alfaro é um velho caminhante do futebol sul e centro-norte americano. Conhece tudo das profundezas dos refúgios futebolísticos mais escondidos deste continente. Usa cada jogo para começar a jogar antes da bola rolar usando o seu perfil de orador. Conta histórias, cita provérbios e compara o futebol a outras atividades e situações da vida.

 

Antes do último jogo, no inferno de Barranquilla, descreveu a Colômbia como um “Frankenstein, porque seria a combinação de todos os jogos que disputamos.  Tem um pouco de Uruguai, um pouco de Equador e um pouco de Bolivia”.

 

A equipa entrou em campo consciente que está na parte mais difícil da subida da montanha usando um provérbio chinês “todo clavo que sobresale recibe un martilazo”. São palavras que tanto pesam como motivam. Assim, empatou um jogo (2-2) que perdia por 2-0.

 

 

Mas, claro, que Alfaro não é só um retórico de boas palavras. Há muito de futebol em tudo que faz (como desde o titulo mítico de campeão argentino com o Arsenal Sarandi em 2012). No caso do Paraguay havia que resgatar um estilo. E, esqueçam, nem sequer é o mais atraente porque no seu auge (como na seleção de 98 com Gamarra e Chilvert) foi considerado uma espécie de “Itália da América do Sul” no sentido tático do termo.

 

Nessa altura, era mesmo um onze “defensivista” que se fechava atrás, quase impenetrável e saía depois em contra-ataques. Agora, nesta reconstrução, Alfaro foi buscar esses espírito tático para incutir rigor tático, poder nos duelos individuais e saber segurar a bola. “Temos de ser uma equipa de resistência”, disse.

 

Foi como ir ao sótão do futebol paraguaio onde estavam guardados as suas coisas antigas, abrir as caixas e dizer-lhes: “Aqui está, esta é a identidade do Paraguay!”

 

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A base é não perder a essência do jogador. Nesta fase a sua seleção tem de olhar para cada jogo como se estivesse na na Universidade.

 

Em campo, montou um 4x2x3x1 com Diego Gomez e Adrian Cubas (posições nas quais também podem jogar Bobadilla e Villasanti) no duplo-pivot à frente da defesa em clássica “linha de 4” chefiada por Balbuena e Alderete, dois centrais de processos simples de corte mas também confortáveis com a bola. Junior Alonso faz, partindo de lateral, toda a faixa esquerda com precisão de subir e descer.

 

Enciso é o criativo-segundo avançado (entre o “10” e o “9,5”) atrás de Ávalos ou Sanabria, os pontas-de-lança (por isso, por vezes mais um 4x4x2) deixando as faixas para vagabundos com imaginação, Galarza ou Sosa e, sobretudo, Almirón, o mais rebelde do onze (onde, como avançado de faixa, também pode entrar Romero) que tem na baliza o experiente “Gatito” Fernandez.

 

Estes são os novos heróis para levantar o “Defensores del Chaco”,  Estádio de paixões em Assunção que Alfaro voltou a acender como um dos mais belos trinadores caçadores de utopias do futebol sul-americano.