O futebol africano feito de saudade

O fim do craque ultramarino. A grande mudança do futebol pós-25 Abril

 

   

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Recordo o seu estilo felino. Uma gazela que podia ser predadora. Que sublime união-contradição entre o belo e o feroz  que o futebol condensou no corpo e gestos de Jordão. Com ele, na década de 80, terminava uma grande dinastia de pontas de lança ultramarinos na seleção das quinas, por onde passaram, sucessivamente, até Jordão, os mitos Peyroteo, Matateu e Eusébio. Em 1974, com o 25 de Abril o filão africano fechava-se definitivamente.

 

A história do nosso futebol, seleção e grandes clubes, foi feita ao longo do século passado, cruzando vários modelos e referências. Não é possível, no entanto, entender sua obra e o caminho sem perceber as atmosferas que o emolduraram, desde o Antigo regime que hipnotizava o pais “onde não acontecia nada” com a trilogia Fátima, Fado e Futebol, até aos tempos presentes da fria e economicista Europa comunitária.

 

Na corrente do tempo, é pacifico afirmar que os 60 inventaram uma nova forma de viver a vida. No nosso futebol, também. É impossível dissociar a era dourada do futebol português nessa década da influência do jogador ultramarino em todos os gloriosos movimentos durante esse período. A colonização futebolística dos nossos tesouros africanos fez do futebol lusitano um dos melhores de todo o mundo. Durante esse período, a seleção nacional chegou mesmo a alinhar com dez jogadores vindos do ultramar e só um da metrópole.

 

Londres, Outubro de 1961, num tempo em que o onze nacional era quase exclusivo de jogadores do Benfica e Sporting, os intrusos eram duas pérolas africanas do Belenenses: Vicente, o jovem irmão de Matateu, e o vertiginoso Yaúca.

 

Nesse jogo, com Peyroteo como selecionador, no apuramento para o Mundial-62, no onze inicial apenas um jogador era nascido no continente português: Cávem, de Vila Real de Santo António. Entre os outros, um vinha das ilhas, o açoriano Mário Lino, outro era luso brasileiro, Lúcio, enquanto os restantes nove eram provenientes do ultramar: Seis moçambicanos: Costa Pereira, Hilário, Pérides, Vicente, Eusébio, Coluna, e dois angolanos. Yaúca e Águas. Vivia-se o tempo da sublimação do pensamento ultramarino, um Portugal do Minho até Timor.

 

Tal situação resultava da importação maciça desse chamado jogador ultramarino feita pelos clubes portugueses. Tudo começou sobretudo na época 55/56, data da Lei que lhes concedia igualdade de direitos aos jogadores lusos. Quase todos eles vinham rotulados de craques, pois indicados por observadores dos nossos clubes, tinham sempre como principal requisito a boa execução técnica. E isso, tinham mesmo, de forma diferenciada.

 

Reparem o número de jogadores das antigas colónias a serem transferidos em cada época para o futebol português, entre 1956 e 1967, após o grande Mundial-66: Em 1956/57: 18 Jogadores; 1957/58: 27; 1958/59:  22;  1959/60:  30; 1960/61:  19: 1961/62 : 29; 1962/63: 20; 1963/64 : 46; 1964/65 : 49; 1965/66 : 58; 1966/67: 45;1967/68: 51

 

É genuinamente português sentir Saudade. Significa muito mais do que simples nostalgia. Significa o desejo de fazer o tempo voltar para trás porque as emoções desse estilo africano que fez o coração do nosso melhor futebol ainda fervem na memória emocional mas em pouco tempo, após os cravos de 74, foram tornando-se meras e distantes recordações.

 

Foi, desportivamente, com e eclosão das justas independências africanas, a maior mudança que a revolução provocou no nosso futebol. Não é exagero, dentro desta realidade, dizer que, em 1966, Portugal foi a primeira “seleção africana” na história a brilhar num Mundial.

 

 

Os talentos continuam, porém, a existir com esses mesmos traços repentistas e malabarismo de técnica nesses jogadores como vimos na última CAN, nos onzes de Cabo Verde, Moçambique, Angola ou Guiné-Bissau. A história, porém, nunca se repete, mas é difícil entender como os clubes portugueses deixaram de olhar para esses países como l fonte de recrutamento de talentos inatos. O “futebol do negocio” sobrepôs-se às origens daquele que, historicamente, foi o nosso futebol mais sedutor, aquele que teve o cheiro a África.

 

 

 

 

Seria possível encontrar outro Eusébio?

 

Quando Eusébio chegou, em 1960, o Benfica tinha ganho 10 campeonatos, tantos como o Sporting. Em 15 anos na Luz, o Benfica conquistou mais 11 e o Sporting apenas 4. O “King” desequilibrou a história do futebol português.

Vendo esse impacto, os clubes portugueses procuram descobrir fenómeno semelhante ao pantera negra. No ataque, Jordão, que fez muitos golos felinos, ou Dinis, o “brinca na areia”, brilhou no Sporting e Porto, fintava dançando com pernas esguias. A reencarnação de Eusébio era, porém, impossível.

A utopia durou, porém, muito tempo. Recordo como já nos anos 90 foi recebido Akwá, que então brilhava em Angola. Até Eusébio o acarinhou na chegada à Luz mas depois, embora Akwá se torna-se um mito no futebol angolano (presente com ele a capitão no Mundial 2006), pouco jogaria no Benfica.

 

Durante quase meio século o Antigo Regime foi todos os anos hipnotizando o povo lusitano com uma peregrinação a Fátima, em Maio, umas casas de Fado e o inevitável futebol ao domingo. Eusébio conta com mágoa a sua conversa com Salazer que e plenos anos 60 não permitiria em nome dos superiores interesses da pátria que a pantera, extensão futebolística de um Império Ultramarino, saísse do Benfica e abandonasse o país para ir jogar em Itália. Eusébio era, dizia, património nacional, pelo que seria impossível a sua saída.

 

QUEM ME (FEZ) FAZ SONHAR

Yaúca

 

Um dos grandes craques das antigas colónias, vindo em 1958 do União da Catumblela de Angola para o Belenenses (tinha 23 anos) onde, como avançado rápido e oportuno, fez muitos golos (96) em cinco épocas (de 58 a 63). Chegou à seleção despertando os olhares do Benfica onde, de 63 a 68, no auge de Eusébio, já não teve igual impacto. Jogou e marcou menos. Seu nome verdadeiro era António Fernandes. Ainda jogaria em 68/69 no Salgueiros e findou em 70 a no Canadá, a jogar no First Portuguese.