Os novos heróis na terra da língua estranha   

O único clube, no mundo, que representa mesmo uma cidade, uma região, um povo.  

 

 

   

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Um sentimento que atravessa gerações que, diziam os ancestrais da velha Espanha caleidoscópio, vinha do chamado povo da língua estranha, o Euskera. Nesses séculos idos, o resto da Espanha via-os, por isso, como súbditos do inferno e as suas mulheres eram vistas como feiticeiras e a inquisição queria purifica-las pela fogueira. Só quando o séc. XX trouxe as luzes e as sombras é que aquele povo conquistaria, então, a sua autonomia apesar dos bombardeamentos da Luftwaffe nazi partidária de Franco, imortalizados na Guernica, mítica na tela de Picasso.

 

Depois do terror da ETA, este povo encontraria no futebol, com o seu Athtletic Bilbao a melhor forma de expressar a sua identidade. Em toda a história, é muito mais do que um clube de futebol. Desde sempre nele só jogaram jogadores bascos, das regiões próximas ou oriundos de segundas gerações com ligações familiares bascas.

 

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É, assim, o único clube que, no mundo, verdadeiramente representa uma cidade, uma região, um povo.

 

Mesmo com essa limitações de poder ir buscar grandes craques a qualquer lado, formou sempre equipas competitivas e nunca desceu de divisão, conquistando nos anos 80 (83 e 84) tempos dum imortal onze treinador por Clemente que tinha o duro central Goikotxea na defesa, Zubizarreta na defesa (herdeiro do lendário Iribar), Dani com técnica, Patxi Salinas na raça e avançados como Endika que marcaria o golo da vitória na Copa de 84, o último titulo conquistado, até que, 40 anos depois, voltou a surgir outro onze-herói a erguer a Taça, então já com a tez negra de dois irmãos avançados, Inaki (29 anos) e Nico (o caçula com 21) filhos de emigrantes ganeses que há três décadas buscaram longe da sua terra uma vida melhor e já cresceram em Bilbao, na formação de Lezema.

 

 

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A equipa dos nossos dias, treinada por Valverde (filho da terra regressado), tem a alma das dos velhos tempos. Inaki pegou, como figura, no legado de Aduriz, e tornou-se um símbolo. Recusou propostas de clubes ingleses e manteve-se fiel ao Athtletic. Hoje, após o auge como goleador quase nº9 (97 golos na sua vida no clube) joga mais a partir da faixa, buscando diagonais, enquanto o irmão truculento arranca desde a esquerda, com grande poder criativo. A única diferença é que se Inaki preferiu jogsr pela seleção do Gana, Nico joga pela espanhola onde se estreou há pouco. Tudo que aprendeu m campo foi, confessa, ensinado pelo irmão mais velho.

 

Na Final contra o Mallorca, jogaram cada um a partir do seu flanco, com  Guruzeta como ponta-de-lança. Um onze de carne e osso, que, em 4x3x3, tem em Sancet o médio/segundo-avançado mais criativo, ficando atrás a equilibrar a dupla Prados-Galarreta (entendo depois Vesga, mais nº6). Na condução de organizador com passe, destaca-se, porém, mais Galarreta a pegar na equipa desde trás como um nº8 livre de chegada à frente.

 

Na defesa. De Marcos tornou-se um lateral-direito completo (defende-ataca-defende com as transições feitas nos tempos certos) ficado os centrais Vivian-Paredes a cobrir a área (na esquerda, muito bem Berchiche)

 

 

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No fim, após o último penalty que dei a Copa já todos só pensavam na Gabarra, embarcação que permanecia em dique seco há 40 anos. Mas atenção, não é um simples barco.

Na origem, a “gabarrra” era utilizada na ria de Bilbao para o transporte de material e em geral era rebocada por outra maior. Uma delas, porém, só saia para levar em desfile pela ria os jogadores do Bilbao nos dias de festejo de títulos enquanto nas margens a multidão em delírio vitoriava os seus heróis.

 

A última vez fora em 1984,. No passar dos anos, ficou então decido: só voltaria à água quando outro titulo fosse conquistado. Após várias tentativas frustradas (Finais da UEFA e da Taça) chegou esta Copa de 2024 e durante a semana a Gabarra voltou a sair, agora com os irmãos Williams como novos heróis da causa futebolística basca

 

Existe mesmo uma escola de futebol basco?

 

É uma das personagens mais polémicas e carismáticas do futebol espanhol. Javier Clemente. Treinador de referência da nova geração nos anos 80 (ainda nos tempos da “fúria”), bicampeão no banco do inesquecível Bilbao de 83 e 84, foi depois selecionador espanhol (Mundiais 94 e 98 e Euro 96) mas sempre em polémicas com a imprensa, saiu muito contestado.

 

Tinha na raiz o estilo da “fúria” que na escola-basca, local onde cresceu o perfil de jogo mais britânico de todas comunidades espanholas devido às fortes chuvadas, levava então a que alguns jogadores, como o velho capitão Unzué a responder um dia quando lhe perguntava o que esperava do próximo jogo: “espero que chova”, respondeu.

 

No fundo, estava a expressar encontrar as condições de terreno, naquele tempo os relvados ficavam mesmo encharcados e revoltos, que melhor se adaptasse ao estilo basco mãos de bola longa. Clemente tentou mudar um pouco esse estilo e meter a bola no chão mas após aqueles títulos, não conseguiu voltar a ter sucesso. A equipa do tecnicista Julen Guerrero foi o exemplo dessa tentativa falhada.

 

Ao contrário dos jogadores, o clube admitiu sempre ter treinadores estrangeiros.  Foi assim que surgiram desde os anos 80, nomes como o inglês Kendall (o tal estilo) britânico), Heykens e mais recente, Bielsa, que já meteu outro futebol, de relvado e bola bem tratada.