O dono do sonho 

Foi taticamente uma grande eliminatória. Melhor jogada pelo Real na Luz. Melhor jogada pelo Benfica em Madrid. Nas duas, decidiu quem está acima do jogo: Vinícius  

Não foi o inicio tremendo que se esperava e o Estádio até parecia estranhamente mais silencioso. Seria do tanto ruído extrafutebol que o antecedeu, o Real Madrid começou lento, expectante e o Benfica pegou no jogo.

Mourinho podia estar a ver no autocarro mas o seu plano estava em campo. A equipa incorporou a melhor personalidade do chamado “jogo do treinador”. Resgatou os flancos assimétricos e lançou um tanto inivador como híbrido 4x4x2 que fez um quadrado no meio-campo enchendo o relvado de médios.

Quem dizia que era impossível um jogador estar em dois sítios ao mesmo tempo, terá perdido alguns desses argumentos perante a movimentação de Aursnes (desde o meio com Barreiro) e Rios (a abrir-fechar na meia-direita por onde subia o lateral-asa Dédic).

O tal jogo de flancos distintos que tinha um flanqueador de verdade na outra faixa (que jogo de Schjelderup a pegar nos ponteiros do relógio na esquerda sempre no timing certo de quebrar para dentro) e no meio a prova do grande jogador que é Rafa.

Cada toque seu na bola, por mais pequeno que seja, é diferente. Provoca aquele bom cheirinho a couro mesmo em material redondo sintético. Havendo espaço, também dá para Pavlidis, neste sistema, ser referência sem se dar à marcação (e poder recuar para receber, apoiar, jogar e voltar para a área).

O erro proibido

Tudo isto seria perfeito demais. Já o “rum rum” de preocupação se instalava pelas bancadas quando todo este “admirável mundo tático” desenhado por “Mou” tropeçou na pedra do erro proibido. A este nível, basta um passe falhado no inicio de construção, uma hesitação e a alma mortífera de Madrid na Champions aparece.

Tchouameni nem é um supercraque mas naquele ambiente cresceu mal recuperou aquela bola e marcou após a tabela com o tratado de tática e técnica que é Valverde (dois passes para golo e aula prática do que é ser um médio completo durante 90 minutos).

É tentador depois resumir uma segunda-parte em que o Benfica esteve mais tempo melhor que o Real, à diferença da ultima palavra que os craques têm que dar para mostrar como estão uns acima dos outros.

Bailar acima do jogo

A bola de Rafa foi na barra ou passou por pouco ao lado. A de Vinicius, mal ele a recebeu, ainda com 25/30 metros para correr num-para-um com o defesa encarnado desde a esquerda, fez logo, nesse instante inicial, levantar todos os adeptos das cadeiras.

Não existe hoje no futebol maior promessa de golo do que quando Viniciús recebe a bola. A sua finalização, fria, precisa e com classe, acabou com o sonho benfiquista na relva merengue.

Foi, taticamente, uma grande eliminatória. Melhor jogada pelo Real na Luz. Melhor jogada pelo Benfica no Bernabéu.

Nas duas, seja qual fosse a tendência de domínio-controlo em campo, decidiu quem está acima do jogo: Vinícius. Da segunda vez, a dançar com o sorriso de moleque que nasceu “abençoado e bonito por natureza” junto à bandeirola certa.

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