Não são fáceis de entender à primeira vista porque não dizem ao que vem. Só os descobrimos verdadeiramente quando aparecem com a bola”
A equipa sai ao campo com as ideias e as frescas para atacar o adversário. O comum é, naturalmente, as transmissões televisivas seguirem sempre a bola durante o jogo.
Muitas vezes, porém, vendo como se movimentam alguns jogadores, penso como também seria interessante seguir só esses seus movimentos, inclusive quando a bola está do outro lado campo, e como ele procuram selecionar os espaços para se colocarem, recuando, avançando, temporizando ou acelerando. É a “inteligência das inteligências” como inventores de espaços.
O “jogo posicional” de Suarez
Isto é, com a sua superior percepção, ocupam sucessivamente espaços que melhor enquadram o “jogo posicional” da equipa em fase de posse/construção e criam esses tais espaços para receber ou tocar a bola. E, então, nesse momento, marcam a diferença. Antes, porém, está todo um processo cerebral de leitura do jogo e sus espaços.
Luis Suarez e Gabri Veiga são, em perfis diferentes, dois belos exemplos dessa espécie superior de jogadores.
Suarez é um tratado a fazer jogar todo o ataque. Mesmo quando a equipa adversária parece fechar em bloco-baixo toda a largura do campo, ele sabe como pode ser recuando um pouco que a… faz avançar. Joga em apoios e combina triângulos. Fá-lo com uma coordenação crescente. E, de repente, a equipa (o Sporting, a melhor em “ataque continuado” do campeonato) ilumina-se. Tudo sem perder o sentido do golo.
O ar de superioridade

Gabri parece, muitas vezes, meio adormecido, mas é pura ilusão porque a sua cabeça nunca para de trabalhar. É um médio de diferentes linhas que incorpora o “moderno 10” no sentido de fugir da zona central de eleição nas costas do ponta-de-lança, para vir antes buscar espaços, muitas vezes na meia-largura, como um interior-esquerdo organizador. Tudo mantendo sempre a visão do último passe.
O jogo na Holanda, contra o Utrecht fechado atrás, mostrou várias vezes esse seu futebol fino de toque e desmarcação num FC Porto com muitas dificuldades na criação coletiva em “ataque continuado”).
Não são jogadores fáceis de entender à primeira vista porque não dizem ao que vem. Só os conseguimos descobrir verdadeiramente quando aparecem no jogo com a bola. Antes, porém, estiveram os tais movimentos confidenciais (para a qual queria a “player cam”) que o fizeram colocar-se no melhor ponto de visionamento do jogo.
Os jogadores a quem se acusa de ostentarem um aparente ar de superioridade e de ter pouco espírito guerreiro são, em geral, os que melhor conhecem as palavras humildade e luta. Só que não as usam da forma primária do sacrifício, mas sim ao serviço do talento. O talento do controlo do jogo e seus espaços mas também a generosidade em respeito à equipa. O método é, afinal, a maneira mais eficaz de fazer as coisas. O futebol estudado.





