O futebol nas nuvens

 “O novo futebol boliviano a 4.000 metros de altitude. De Lampe a  Miguelito, o futebol mais perto do céu”

S ó há um Estádio mais alto onde se joga futebol.  Fica em Cerro de Pasco, no Peru, a 4.378 metros acima do nível do mar. É o Daniel Alcides Carrón, onde joga o Unión Minas. Depois, a 4.090 de altitude, próximo da capital La Paz na Bolívia, na cidade de El Alto, o Municipal de Villa Ingenio, onde joga o Always Ready. Este foi o local perto das nuvens onde a seleção boliviana recebeu os adversárias para disputar os últimos cinco jogo de apuramento para o Mundial.

A qualificação já parecia impossível mas numa atmosfera de ar rarefeito, onde a qualquer visitante custa habituar-se a respirar, tudo mudou. Em cinco jogos, empatou com Paraguai e venceu Chile, Venezuela e Colômbia até, esta semana, contra um onze brasileiro em descompressão e a arfar quando tinha de correr para recuperar depois de ir à frente, ganhar o jogo decisivo que os meteu no “play-off “de repescagem para o Mundial.

A loucura tocou literalmente o céu. Ancelotti nem queria acreditar no que estava a viver mas para aquela gente dos Andes esse é o ar que habitualmente respiram. Só o ano passado é que a CONMEBOL deu autorização para jogar-se aí.

Fizeram-se obras e na entrada do Estádio ficou estampada a frase que é um lema do futebol boliviano: “Se juega donde se vive” (Joga-se onde se vive). Um argumento tão humano como outro que ficou célebre em 2007, quando o então Presidente Evo Morales disse, para justificar jogar na altitude, que “onde se pode fazer amor, também se pode jogar futebol!”. Incontestável.

A nova geração da Bolivia

Recordo o bigodão do basco Xabier Azkargorta. Ele foi o treinador pai-herói da última vez que a Bolívia apurou-se para um Mundial. Em 94 (com Sanchez e o “El Diablo” Etcheverry). Nunca mais o “fútbol” boliviano voltou a ter uma geração com tanta qualidade.

Este onze que surge a tentar resgatar o sonho mais de 30 anos depois, é feito doutra matéria. Não tem estrelas mas tem alma. Óscar Villegas, um filho de Cochabamba, é o treinador que incorpora essa genética onde nasceu e sempre viveu (foi do Always Ready para a seleção). 

Menos oxigénio e o coração a bater mais forte. Assim se sente qualquer pessoa em altitude. Imagino o segundo factor ainda mais acelerado naquela noite quando ao minuto 49 (descontos da primeira parte), o franzino Miguelito Terceros foi bater o penalty que podia meter a Bolívia a ganhar. Golo!

Com 21 anos, ele é uma das maiores esperanças do futuro boliviano, tendo crescido já longe, no Brasil, nas escolas do Santos até agora estar no At. Mineiro. É um extremo canhoto de fintas e malabarismos, desde o flanco direito (“pé trocado” dum 4x3x3 que teve outro “pibe”, Paniagua, 18 anos, destro a jogar desde a esquerda, que na vida só conheceu jogar no Always Ready que recebia o  jogo).

Eles são, junto com o ponta-de-lança Enzo Monteiro (21 anos, a jogar na Letónia, no Auda) as caras do novo plano de milagre do futebol boliviano que tem, na baliza, o veterano Calo Lampe, 38 anos e 60 jogos na seleção, a chorar no final por chegar até aqui.

Herdeiros de Azkagorta

Como pivot-nº6 de construção e equilíbrio tático para um meio-campo em “1×2”, que bonito foi ver o “pibe” Ervin Vaca, 21, do Bolivar. É jogador para níveis superiores, bem apoiado por Robson Tomé, 23, num triângulo com, sobretudo Villamill (24, do LDU Quito), incansável nº8 de recuperação e saída.

Luis Haquin, 27, é o central-chefe da defesa (ao lado, Morales, 21, jogou sempre nos EUA e Canadá).

O futebol boliviano vive nas nuvens. No sonho “mundialista” e na realidade competitiva. Imagino o bigode de Azkagorta, entretanto falecido, a erguer-se num sorriso feliz e trocista. Aqui, a frase feita muda: Só depois do céu é que está o limite.

Últimas