O Mundial numa goleada

“Existia a memória do erro dos últimos jogos mas quando o nosso estilo desceu à relva mentalmente solto a goleada surgiu naturalmente”  

Deixávamos para o último jogo a decisão final, o adversário era menor mas havia um dos piores fantasmas a entrar com os jogadores portugueses: a memória do erro.

É o que mais pode trair uma equipa muito superior num confronto destes, ter na cabeça os jogos anteriores mais recentes onde a superioridade também era dado adquirido mas, depois, as incidências dos jogos levaram o resultado para o lado mais improvável. Além disso, a exibição na Irlanda deixara-nos fisicamente assustados.

A Arménia não tinha tamanho para isso mas a atmosfera inicial trazia o tal aroma da “memória do erro”. Acho que isso tolheu a exibição e movimentos dos jogadores portugueses nos primeiros 25 minutos.

Marcamos na linha do fora-de-jogo, sofremos o empate por falta de agressividade defensiva e a nossa cabeça podia trair o destino do apuramento natural.   

Surgiu, porém, o futebol rendilhado natural português a partir do meio-campo. Desde Vitinha e João Neves, até Bernardo e Bruno Fernandes. Um estilo que faz a bola colar às nossas botas que pode ter a variabilidade estilística com um jogador diferente, o extremo veloz de piques que é Rafael Leão.

A seleção mostra, assim, que pode jogar de formas distintas em função das características dos jogadores num modelo que, dentro dessas nuances, tem sempre a participação dos laterais a jogar por fora, “á linha” com Semedo, ou “por dentro” com Cancelo, destro à esquerda.

A goleada ao intervalo já soltava o nosso melhor futebol, o da técnica, circulação de bola e trocas de passes rápidas para remate. O Mundial estava naturalmente garantido. 

A segunda gestão

A segunda-parte deu para gerir e saborear. Meter agitadores como Chico Conceição é o estreante Forbs que numa das primeiras fugas ganhou um penalty.

O jogo tornou-se uma formalidade de gestão de ritmos e golos.

No fim, a sensação que a qualidade que tem atualmente ao dispor a nossa seleção, foi desajustado deixar este curto apuramento de seis jogos ir até ao último para ser decidido. Não serão só o que perdemos e empatamos que nos deve fazer pensar. São, também, os que, contra os mesmos adversários (Hungria e Irlanda) ganhámos no ultimo minuto. A ter empatado esses dois e as contas seriam mais delicadas.

Mesmo assim, a máquina calculadora do último jogo foi só para clicar na tecla de somar. Nove golos. 

Ramos: O golo mais importante

Em geral, numa goleada, é comum dizer-se que o primeiro golo foi o mais importante porque, em geral, é o que desbloqueia o 0-0 e abre a lata da baliza adversária. Não foi bem o caso nesta goleada à Arménia, porque sofremos depois o empate.

O golo mais importante da goleada para afastar o mais improváveis dos fantasmas foi o do 2-1 quando Gonçalo Ramos cheirou o erro dum atraso desajustado arménio ao guarda-redes, para se meter no meio. roubar a bola e marcar o golo mais fácil e mais importante ao mesmo tempo.

Sem Ronaldo, a posição nº9 da seleção teve um novo dono. Sentiu-se menor pressão nesse espaço e Gonçalo soube mover-se em função da equipa. Procurou fixar-se na área, mover-se nela em espaços curtos e tanto ocupá-los para como, sobretudo, abrir para quem entrava em seu torno. 

A forma como foi buscar a bola atrás e construiu para dar a Bruno Fernandes no 6-1 que abriu a segunda-parte mostrou esse lado multidimensional do seu futebol.

Merece e precisa claramente de jogar mais tempo. Já sei que aquele terreno é como “propriedade privada” de Ronaldo mas há muitos momentos nos jogos em que se precisa dum jogador, casta de nº9, diferente nos comportamentos. Gonçalo Ramos tem esse pedigree (com golo pistoleiro no sangue). 

Ouçam como respira João Neves

Ser um gigante em campo não se mede aos palmos. Mede-se em passes e passos. Boas opções e visões. Num nome: João Neves. Morfologicamente uma “bolinha de carne” que faz do meio-campo uma rotunda com várias saídas que ele escolhe em função da jogada.

Leva a bola com ele e diz à equipa para onde deve entrar com ela para criar mais perigo. Fez um golo que resultou duma jogada com “tricot lusitano de técnica” e outro num livre que levou a bola a entrar como fosse teleguiada por um controlo remoto. O estilo mais genuíno do nosso futebol está neste tipo de jogador. Necessitamos de outros para ficar mais completo mas o inicio físico-técnico é este. Bonito e puro.

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