Chegou a Lyon e Paulo Fonseca em vez de dar-lhe posição de protagonista, adaptou-o à maquina tática coletiva
O melhor é começarmos a pensar a partir do “bom senso”. Não é fácil porque uma das manifestações mais comuns e suicidas do futebol atual é a lançar craques à pressa, saltando os naturais degraus de crescimento.
Endrick, contratado pelo Real Madrid ao Palmeiras quando com 16 anos (só podendo rumar a Madrid aos 18) chegou agora, emprestado, ao Lyon para, no fundo, repor esse “habitat “certo de evolução como futebolista. Paulo Fonseca recebeu-o assumindo essa missão (até para o levar ao Mundial) e a sua integração no belo onze do Lyon, tem espelhado essa preocupação até na forma e posição em que está a jogar.
O talento não pode ser reduzido a um papel marginal em detrimento do “sacrifício tático” mas tem de servir para elevar o jogo coletivo e não só o seu. Não existem grandes equipas sem aplicar as regras mais básicas.
O esquema do Lyon

Endrick é um miúdo que, pela imaginação, se atreve a tudo. Até a cumprir regras.
Chegou a Lyon e Paulo Fonseca em vez de lhe dar uma posição na equipa de protagonista, adaptou-o à maquina de dinâmica tática que criara a partir do momento (o último dia do mercado de inicio de época) em que lhe tiraram o melhor avançado-centro que tinha (Mikautadze).
Sem tempo para buscar um substituto, foi recriando um sistema com um “falso 9” (puxando um médio-ofensivo para esse espaço com inteligência para avançar e, sobretudo , recuar) e dois pontas que jogam em diagonais ou na profundidade. É nesta dinâmica que tem jogado Afonso Moreira, a “partir tudo” desde a meia-esquerda, na velocidade com bola, finta em progressão, passe e golo, e, apareceu no inicio checo Karabec, desde a direita.
No tal espaço do “9” surge, criando ilusões aos centrais adversários, Satriano, Sulc (que também pode jogar desde a direita) ou, nos últimos jogos, Merah. É uma estrutura de 4x3x…”1×2” ou “2×1”. Tudo varia desse elemento avançar ou recuar.
Saber jogar aberto
Perante este cenário, seria tentador meter Endrick a nº9 puro e restabelecer essa ordem posicional natural. A critica brasileira esperava isso mas o que temos visto nestes primeiros jogos, é Endrick a jogar a partir da meia-direita (rotinas de espaços que, embora noutro modelo, já conhecia do Palmeiras).
A forma como ele entrou nessa dinâmica de princípios de jogo, revela várias das suas maiores armas: adaptação a qualquer movimentação, disponibilidade para aprender/crescer o seu jogo de “tática individual” e a capacidade de expressar o talento a partir de diferentes espaços.
Mete mudanças de velocidade (e arranca imparável) no “timing” certo e surge na zona de finalização, dando a linha de passe que se adivinha para marcar.
Marca-Paulo Fonseca

Este Lyon é uma “equipa de autor” que obriga os jogadores a adaptarem-se ao sistema sem, com isso, sentirem-se presos taticamente. Pelo contrário.
Vemos isso também pela forma como os médios se soltam. Na melhor versão, aponto Tessmann a equilibrar como “nº6 pivot” desenhando um triângulo móvel que adianta Tolisso, para pressionar alto ou combinar subido, e larga, de trás para a frente, o jogo de “três linhas” que faz de Morton um médio-total. Recupera e surge na zona de último passe/remate.
A defesa está bem segura (Kluivert-Mata é uma dupla de centrais rápida) e os laterais (Maitland-Niles e Tagliafico ou Colin) sabem ser primeiro… defesas e depois apoiar a construção ofensiva.
Endrick encaixou nessa máquina como uma peça que já estiva destinada a uma missão especifica nela. É possível que, com o decorrer da época, também vá mesmo pisar os terrenos do nº9, mas na base do seu pensamento de jogo já está uma ideia coletiva que não o coloca acima de tudo.
É este o tal “habitat de crescimento”, os degraus certos de evolução, que o vertiginoso futebol atual tantas vezes não respeita no talento que desponta cedo demais. Melhor, portanto, começarmos a pensar partir do “bom senso”





