De repente, tudo treme num contra-ataque vertiginoso. A imagem das equipas francesas de segunda linha para combater as grandes
O tempo voa. O futebol francês vivia um ciclo sem domínio claro duma equipa, quando, em 97/98, o Lens formou um onze inesquecível e venceu La Ligue.
No banco, o saudoso Leclerq, homem da casa, ex-jogador. Como treinador, apostara em jogadores a lançar-se na elite, como o checo Smicer, a organizador de jogo a meio-campo junto de Ziani, com dois pontas-de-lança fortes, Drobnjak e Vairelles. Assim, conseguiu o único titulo nacional do clube, disputado então até ao fim com o Metz de Robert Pires a emergir como craque-promessa.
Será impensável repetir hoje esse feito contra a bomba-atómica do PSG, mas ninguém pode impedir o atual onze inventado por Piere Sage de sonhar em repetir o feito tal a qualidade do futebol que tem exibido, chegando a líder.
O sensacional Lens

A proeza seria mais fantástica porque Sage criou esta equipa em cima de dificuldades financeiras. Com uma mescla perfeita entre disciplina e criatividade, montou um onze capaz de interpretar o seu 3x4x3 como equilíbrio defensivo (com três centrais fortes, Grdit-Baudoo-Sarr e laterais ofensivos, Aguilar-Udol)) e três avançados móveis na frente (Édouard forte a nº9, Said inventor desde a esquerda e a estrela Thauvin, renascida aos 32 anos, para ser um nº10 segundo-avançado desde a meia-direita.
Rápida na saída para o ataque, lançando o contra-ataque e pressionando os adversários ganhando muitos duelos, com uma dupla de médios que se complementa muito bem: Sangaré (ex-Rapid Viena) a comer metros duma área à outra e o sábio Thomasson a gerir ritmos de jogo.
As variantes de Marselha

No ataque utópico ao trono do PSG, está, além do sonhador do Lens, está mais um projeto rebelde do Marselha de De Zerbi. Embora inconsistente no nível exibicional, é a equipa tacticamente mais versátil do campeonato, atacando a partir duma estrutura a “3” e defendendo muitas vezes a “5”. O jogador mais importante para essa variação de sistemas é o ala Timothy Weah, extremo a atacar, lateral a defender.
No papel, a estrutura inicial é um 4x2x3x1 com Hojbjerg a mandar no duplo-pivot do meio-campo, onde pode fazer dupla com O`Riley (a sair bem para o jogo) ou a promessa marroquina Bilal Nadir. Olhem bem para este jogador, 22 anos, grande visão tática posicional e saída de bola. Sem inventar, corta, controla e conduz.
Abaumeyang continua a impor respeito aos defesas como nº9 mas quem causa maior perigo, com Greenwood sempre a procurar o meio vindo de fora para dento, é o brasileiro de “zig-zag e remate” Igor Paixão.
O estilo da velocidade
Esperando-se o crescimento do Monaco pela imaginação de Akliouche e do Lyon, pela visão tática de Paulo Fonseca, outras equipas têm mostrado bom futebol no topo da tabela.
Vejam jogar o Rennes (em 3x5x2) com Lepaul e Embolo na dupla atacante e um triângulo no meio-campo gerido desde a meia-direita por Nahdi Camara. O seu estilo de jogo incorpora a essência de muitas equipas francesas que são, na chamada gama-média, muito fortes a explorar momento de contra-ataque ou de exposição de espaços para ataques rápidos. Quase todas têm, avançados africanos ou de territórios gauleses das Antilhas muito rápidos.
Por exemplo, mesmo uma equipa como o Le Havre, a lutar para não descer, pode surgir contra um grande a fazer correr muito os seus centrais com bolas metidas nas costas para a velocidade de Doucoré Ketcha, Kyeremeh ou Soumaré, todos velocistas do ataque.
O belo Lille de Bruno Genésio sentiu isso na pele num dos últimos jogos. Tinha o controlo do jogo e da posse (muito bem os médios Benjamim André e Bouaddi) mas, apesar da qualidade ofensiva com Félix Correia desde a direita e Sahroui ou Haraldsson desde a esquerda (Giroud é o nº9 numa “segunda vida”), de repente sentiu tudo tremer com um contra-ataque vertiginoso adversário. A imagem tática perfeita do futebol francês das equipas de segunda linha para combater os grandes.
Osame Sahraoui

A fineza da técnica
Um marroquino nascido na Noruega, crescido no Valerenga e que emergiu na Holanda, no Heerenveen, até ir a época passada para o Lille onde, esta época, aos 24 anos, está a mostrar com consistência a qualidade tecnicista do seu futebol com fineza de controlo de bola, finta curta e passe. É o estilo de Osame Sahraoui, um ala organizador, destro na esquerda, com visão para combinar e desmontar defesas. Vê-lo jogar é provar a miscigenação de estilos, entre os quais fica evidente o sangue de origem do jogo marroquino de técnica apurada.
Na seleção, jogou nas camadas jovens pela Noruega mas agora, adulto, quer a seleção de Marrocos. Talvez no Mundial.





