Os pontapés que nunca te darei  

Por uns instantes o mundo dividiu-se assim: Num lado, um numero infinito de coreanos enlouquecidos, os onze principais, mais os que correram desde do banco, no relvado, abraçados numa pinha, enquanto na bancada milhares, quase todos de cabelo igual, saltavam com lágrimas pela vitória;

No outro, onze uruguaios desesperados, com a camisola enfiada na cabeça ou, furiosos, querendo comer um árbitro que não viu dois penaltys que reclamavam, expressando o sentimento de 3 milhões de “hinchas” dum pais pequeno que então entrara todo, pela televisão, dentro da área do Gana para tentar marcar, sem êxito, um golo que os apurava.

No meio. uma outra seleção, a portuguesa, cumprindo o calendário, insensível a estes dramas, jogando sem ligação e perdendo naturalmente sem, com isso, nada de grave se passar, porque continuava em primeiro. Um fado triste de futebol.

2.

Nada disto traduzirá o que foram os jogos mas traduz a forma como Portugal abordou formalmente este ultimo jogo da fase de grupos. Sem dilemas, gerindo titulares (e amarelos) e montando um onze alternativo com valor para ações individuais (sempre bem Vitinha e excelente Dalot, que acho ter ganho a titularidade a lateral-direto, passando Cancelo para a esquerda) mas sem valor para interações colectivas tal a falta de entrosamento para posse de bola que revelou aquele 4x3x3 com… quatro médios.

Eram eles Ruben Neves pivot, com Vitinha, que começou a “8” e acabou a “10”, e Matheus Nunes, que começou a “10 de pressão” e acabou a “8”, mais João Mário falso-ala à esquerda, entrando depois Palhinha para fechar a porta a trinco e então dizer exatamente o oposto em termos de estilo do que Ruben Neves dissera na mesma posição “6”. 

Acho que só esta simples definição do nosso híbrido e desligado meio-campo (a “diesel” nas transições pós-perda, sofrendo defensivamente perante os esticões coreanos) diz tudo duma seleção que jogou sem personalidade de jogo definida e com a motivação adulterada (porque, com o outro resultado, cedo o primeiro lugar ficou seguro).

3.

Na parte final, mais um substituição cinematográfica de Ronaldo. Vociferou para o coreano que queria que ele saísse depressa (versão oficial) ou para quem estava morto por o tirar (versão popular)? Não sei. Sei é que o seu rendimento, neste momento, tornou-se mais problema do que solução para acabar as nossas jogadas de ataque (só o vendo hoje possível no onze como ponta-de-lança fixo). Não me preocupa nada não ficar contende por sair. Preocupa-me é, com ele a nº9, a equipa ficar condicionada em lhe dar a bola para finalizar em vez de fazer outras combinações que o talento dos nossos avançados podem inventar para criar melhores lances de golo. O resto são coreanos aos saltos e uruguaios furiosos

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