“Rashford, Weah, Woltemade e a memória de Puskas a querer a bola de Di Stefano!”
Voltou a Champions. É tempo de chamar os clássicos e os modernos. De Zerbi visitou Madrid com o seu Marselha dogmático na saída mais curta e arriscada desde trás e durante muito tempo estendeu a sua filosofia de jogo pelo relvado. Acabou traído por dois penaltys desengonçados. O Real voltava a mostrar como controla o destino. Jogava com dez, parecia encurralado, e, de repente, ganhou. Não sei se, no fim, Mbappé levou a bola dos dois golos mas vendo-o após o apito final, recordei como Madrid ser o dono da bola, já vem dos velhos tempos de Puskas e Di Stefano. Quando jogava juntos e ganhavam tudo, eles debatiam quem levava a bola no fim em função de quem marcava mais golos no jogo.
Na mítica Final de 60, quando venceu o Eintracht Frakfurt por 7-3, Puskas marcou quatro golos e Di Stefano os outros três, mas o “Pancho húngaro” conhecia bem demais a “Saeta Rubia” e sabia que ele, mesmo assim, ia pegar na bola para si.
Matreiro, Puskas, aproximou-se dele quando Don Alfredo já levava a bola debaixo do braço e disse-lhe: “o que achas de darmos a bola ao alemão que marcou dois golos? Coitado, perdeu mesmo assim e é o mínimo que podemos fazer por ele”. Di Stefano espanta-se, refuta mas acaba cedendo e, por isso, Erwin Stein saiu de Glasgow com a bola, enquanto Puskas sorria desde a sua travessura. Imortal!
Não sei se, desta vez, algum jogador do Marselha levou a bola mas tinham perdido uma oportunidade enorme de ganhar o jogo. O onze tem um estilo de jogo duma fidelidade ao “dezerbismo” que chega a comover. Sabe jogar, sabe atacar e divertir-se, sabe recuar e sofrer. Não se encolhe em nenhum momento.
Pavard continua a ser um lateral adulto a fazer todo o flanco com sabedoria e Balerdi é um central de personalidade ágil sempre com o nariz argentino no ar. No ataque, Aunbameyang já só assusta mais do que cumpre, Greenwood é um talento de caprichos, mas Timothy Weah fez um jogo fantástico a partir da ala esquerda. Cruzou toda a frente de ataque, fez um grande golo, esteve perto de bisar e mostrou que após hipotecado tantas vezes à lateral na Juventus, reencontrou em Marselha o seu habitat perfeito de “extremo-avançado de faixa” solto. Se continuar neste nível de jogo, este Marselha pode deixar marcas na época.
O novo Rashford
Quem pode mesmo levar a bola para casa, é Rashford. Voltou a Inglaterra a partir da ala esquerda do ataque do Barcelona (Raphinha foi para a direita) e, sozinho, venceu o jogo em Newcastle com dois golos de silenciar o Estádio.
O treinador Flick deu-lhe a confiança e o “Lord inglês” mostrou o que é saber aparecer como um nº9 partindo como extremo livre. Lewandovski ainda tem, por estatuto, esse posto-posição no onze, mas regressando Yamal, imagino que Rashford possa mover-se posicionalmente e jogar como um “falso 9”, isto é, sem ser uma referência fixa de ponta-de-lança como o catedrático polaco, mas de quem sabe estar ou entrar nesse espaço no centro da frente de ataque e incorporar o goleador.
O mistério Woltemade

O Newcastle tinha um ponta-de-lança de verdade para lançar, o alemão Woltemade, mas só o fez na última meia-hora (preferiu um nº9 móvel, Gordon, para confundir marcações). Podia ter corrido bem mas Woltemade é um nº9 com um potencial como há algum tempo não se via no futebol alemão. Tem “presença panzer” entre os centrais, é forte no jogo aéreo, segura bem a bola, quase impossível tirá-la no seu estilo “perna-longa” musculado e, o mais importante, sabe como mover-se em função da equipa em apoios ou do espaço curto na área para remate.
O onze de Eddie Howie tem uma dupla de médios-centro de Champions (Bruno Guimarães-Tonali) mas custa-me ver Joeliton metido como segundo-avançado de terceira linha do meio-campo. Precisava ali doutro perfume com bola a temporizar/pausar com a bola e descobrir linhas de último passe.





