“Toca-a outra vez, Jackson!” *

* “Não deves esquecer que um beijo continua a ser um beijo, um suspiro apenas um suspiro. O fundamental impõem-se com o passar do tempo (Play it again, Sam!, Casablanca).”

É mentira que o lado científico do jogo e a espontaneidade sejam incompatíveis, mas os momentos que nos fazem disparar das cadeiras, nunca são os que se explicam com grafismos ou ensaiam nos treinos. O golo, gesto técnico ditado pelo instinto ágil de resolver problemas com bola, não se constrói, nasce. Quando a bola vem no ar, o suspiro de Jackson é para a dominar. A forma como, depois, remata (calcanhar de costas para a baliza), nasce do muito futebol que, ao longo do tempo de vida (a jogar ou a pensar em jogadas na cama à noite) lhe passou pelos pés ou mente.

Um golo destes plana sobre todo um jogo como ser superior, mas, em campo, houve vida para além desse poema de futebol.

Um ponto muito criticado no FC Porto, é como baixa o ritmo sempre que sente ter o jogo controlado e que o adversário não será capaz de causar grande perigo. É uma avaliação arriscada porque uma coisa é controlar o jogo (manter organização defensiva sólida), outra é controlar o resultado (sempre sujeito, com 1-0, como frente a Rio Ave e Sporting, ao imponderável de uma jogada). Não acredito que esse baixar de ritmo resulte de indicações de Vítor Pereira. É o instinto futebolístico-animalesco dos jogadores em campo a farejar o perigo (ou a falta dele) que os estimula ou não. Contra o PSG, por exemplo, nunca baixou de rotação táctica porque teve os sensores de detecção de perigo sempre ativos. Um estimulo que transforma o jogo da equipa e provoca diferentes sensações em relação a ela.

Toca-a outra vez, Jackson!O Sporting fez um jogo interessante até ao momento em que tinha de pensar na baliza e descobria-se facilmente que essas ideias não se aplicavam aos últimos 30 metros. Falta-lhe profundidade, um ponta-de-lança mais rápido na bola que cai nas costas da defesa adversária. De boas intenções está o meio-campo cheio.

Vejo este Sporting nestes jogos e penso que o ideal para compensar essa falta de profundidade era ter um extremo (isto é, um jogador essencialmente rápido) no espaço do nº9 (como era Matheus no Braga). Não digo que fosse sempre titular, mas era um jogador fundamental para ter no plantel em função desta forma de jogar.

Vítor Pereira disse que o golo de Jackson não o surpreendeu porque é habitual ele fazer aquilo no treino. Não sei. Sei é que o fundamental se impõe com o passar do tempo. Por isso, mesmo que o seu ritmo seja o Chá-chá-chá, recordei a mítica letra que, em Casablanca, Bogardt pedia a Sam, pianista, para tocar várias vezes. Porque se um beijo é só um beijo, um golo é só um golo. Como um suspiro. Bogardt procurava despertar sentimentos. Como o melhor futebol deve fazer. Acreditando no seu treinador, fico apenas suspenso de quando o ponta-de-lança do FC Porto irá repetir um golo destes. Play it again, Jackson!

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