Não é fácil de avaliar o que faz tal a forma como a jogada em que explode parece aparecer e desaparecer aos nossos olhos, ao ritmo de que pestanejamos, tal a velocidade com que arranca, simula, e explode outra vez, com velocidade ainda maior.
Mbappé é como um jogador “blade runner” que um humano tem dificuldade em reconhecer se é ou não da mesma espécie. Podia melhorar o momento de definição final. Para isso talvez tivesse de tornar-se futebolisticamente mais humano e acabar a jogada sem a mesma expressão supersónica. Não sei se assim não perderia alguma da alucinação que provoca.
O jogo teria a resposta escondida mas nesta altura ainda ninguém sabia. Entretanto, ele já voltara a arrancar para cima do defesa, até que, já mais tarde no jogo, o mundo-explosivo mudou. Moveram-se outros e ele, Mbappé, recebeu, quase estático, como dono do destino. Adónis concentrado. “Bang!” (duas vezes). Sem “sprint”, só remate! Indefensáveis.
Um dia, acredito, descobriremos mais qualquer coisa sobre a matéria de que é feito.
2.
A estratégia defensiva polaca foi pouco como plano de jogo mas é um alçapão em que podia cair outra equipa forte. A corte ofensiva gaulesa é o que faz a nata do onze. As explosões de Mbappé desde a esquerda, os arranques serpenteados de Dembelé na direita, a criatividade com organização de Griezmann segundo-avançado “falso 10” e um ponta-de-lança elegante, Giroud, de peito feito com golo fácil. Esta nobreza tem, porémquem a segure atrás. Tchouameni é hoje um dos mais fortes candidatos ao prémio de “melhor jogador-discreto do Mundial” e Rabiot está a jogar melhor correndo menos (ficando mais como nº8 posicional).
3.
Falar de médios neste Mundial é, no entanto, falar da casa de futebol-total que se tornou o meio-campo da Inglaterra sobre o que é o jogo interior completo no controlo e ataque à profundidade. Uma interação tática que começa em Rice a “6” mas emerge numa dupla “come metros”: Belligham-Henderson.
Ambos, jogaram por dentro do meio-campo do Senegal e tiraram-lhes o tapete tático debaixo dos pés. A capacidade de passada larga tecnicista de Bellingham tem o complemento perfeito na criatividade de passe e… movimentos de Henderson, na forma como joga na meia-direita mas depois abre na ala. Tudo respeitado pelo resto na equipa que, além do movimento-Kane (o recuar do nº9 entre linhas e passar) confirmou a visão a entrar os espaços certos (fora-dentro) de Saka, cara de menino no corpo dum futebol adulto.
Há muito de treinador em tudo isto. Southgate mexeu nos cadernos táticos do futebol inglês e montou-o bem a ideia de jogo a partir da segurança defensiva. Por isso mais que laterais, Walker e Shaw são defesas à largura a “linha de 4” defensiva, permitindo soltar o resto da equipa no horizonte do relvado.





